Nada, absolutamente nada, justifica
a tortura. A tortura é a mais vil, mais baixa ação humana. É quando os
milhões de anos de evolução da espécie desaparecem. O homem torturador é
um animal com fala. Um ser selvagem, incapaz de compreender não só a
relevância da vida em sociedade, mas o tamanho de ser humano. Prender
alguém, torturar, arrancar, na pancada, o que o outro tem de mais
íntimo, seus pensamentos, sua liberdade de agir, é ato de insanidade,
uma grotesca atitude contra a humanidade, que é um princípio
inegociável.
Nos últimos dias, o noticiário nos traz à
casa dois personagens que optaram pela perversidade e estão aí para nos
lembrar do que a estupidez da raça é capaz: o sequestrador de meninas
de Cleveland, Ariel Castro, que por uma década estuprou três garotas
presas num porão, e o militar reformado brasileiro Carlos Alberto
Brilhante Ustra, que chegou a ter 2 mil presos políticos sob seu domínio
em São Paulo, como nos conta a obra de Elio Gaspari (A Ditadura
Escancarada, Cia das Letras, 2002).
Castro e Ustra são animais do mesmo lodo
sádico. Um, o dos EUA, que choca a sociedade por estes dias, torturava
mulheres, tratadas como bicho na escuridão do buraco de seu subsolo. Já o
brasileiro agia da mesma forma com todos os que pensavam diferente
dele, desde que dominados, claro, presos no DOI. Há documentos que
mostram 92 mortes ocorridas nas masmorras que ele chefiava. E há relatos
de sobreviventes de suas torturas, como o caso do vereador Gilberto
Natalini(PV-SP), que fez questão de olhar ontem a cara do torturador,
como relatam os jornais deste sábado, 11.
Pelo que se sabe até agora, há apenas uma
diferença entre o monstro de Cleveland e o monstro do DOI. Este, que
foi à Comissão da Verdade, justifica a covardia dizendo que fez tudo o
que fez porque obedecia ordens de governo. Porém, há muitos outros
militares que se negaram a participar dos espancamentos. Ele, não.
O Estado brasileiro deve sim ser
responsabilizado pelas atrocidades cometidas nos porões da ditadura, um
aviltamento social que, na essência, tem a mesma monstruosidade
perpetrada contra as meninas de Cleveland. Está mais do que comprovado
que no Brasil um bando de loucos, civis e militares, incapazes de
enfrentar o debate político contra o pensamento diferente, editou Atos
Institucionais, fechou o Congresso, e apelou para a força armada e
policial manejada por energúmenos empregados do Estado, encharcando o
país de sangue, calando a imprensa, estuprando a liberdade.
Agora, ao ter parte de sua brutalidade
revelada na Comissão da Verdade, o torturador, já assim reconhecido pelo
Tribunal de Justiça de São Paulo, nega tudo e tenta empurrar a
responsabilidade de suas fraquezas e os assassinatos para outros. E
permanece onde sempre esteve, mergulhado na covardia e na vilania.
Certamente não foi a tortura praticada na
ditadura que garantiu as liberdades no país. Até o papa Paulo VI tomou
partido, à época, contra o crime que acontecia no Brasil. No Chile, na
Argentina, essa escória da tortura já foi responsabilizada. Aqui ainda
se permite que um repugnante torturador continue livre se arrastando
como um réptil a expelir o mau hálito da ditadura.
Dilma pode ter todos os defeitos do
mundo. Pode-se discordar dela à direita e à esquerda. Mas não se pode
esquecer da história. Entre Dilma e Ustra, o Ariel Castro brasileiro,
fico com Dilma.
BLOG DA GAROA
Histórias de São Paulo
Estadão
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