Auditor que comandou desvios do ISS de até R$ 500 milhões complica ainda mais o ex-prefeito de São Paulo; após dizer que ele estava “ciente de tudo”, Ronilson Bezerra Rodrigues, que ocupava o cargo de subsecretário da Receita da administração, conta como Kassab o livrou da investigação interna sobre seus elevado patrimônio, aberta pelo corregedor Edilson Bonfim; fiscal foi solto nesta madrugada e continuará a ser ouvido pelos investigadores
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247_ Em uma sequência de afirmações interceptadas pelas investigações da máfia do ISS, o auditor Ronilson Bezerra Rodrigues revela detalhes do provável envolvimento do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (PSD) no esquema.
Segundo Rodrigues, o secretário e o prefeito com quem trabalhou tinham ciência de toda a fraude. "Chama o secretário e os prefeitos com que eu trabalhei. Eles tinham ciência de tudo", disse ele numa conversa com Paula Sayuri Nagamati, chefe de gabinete da secretaria de Assistência Social e com quem, segundo denúncia do Blog da Cidadania, tinha um caso.
Em novo grampo obtido pela Folha, ele é mais categórico e diz que Kassab mandou arquivar um procedimento aberto para apurar denúncia de que seu enriqueceu de forma ilícita.
Em 2012, Rodrigues era alvo de uma investigação interna comandada pelo corregedor Edilson Bonfim. Na gravação, ele relata ao fiscal Luiz Alexandre Cardoso de Magalhães, conhecido como “Louco”, como o ex-prefeito decretou o fim da apuração.
"Isso o João Francisco Aprá, chefe-de-gabinete do Kassab, me contando. Ele (Edilson Bonfim) falou: olha, a evolução é compatível, mas eu queria abrir a conta dele'. E o Kassab: não, não tem motivo'. E falou: então arquiva'. Arquivou."
Em nota, o ex-prefeito alega que a apuração, mesmo preliminar, foi transferida para a administração Haddad. A gestão petista diz que o procedimento se "limitou a ouvir o investigado" e que "nenhum encaminhamento foi dado à época e o processo ficou parado".
O ex-prefeito de São Paulo pode ser convocado a depor sobre o suposto esquema de cobrança irregular de ISS (Imposto Sobre Serviço) a construtoras na capital paulista. Segundo o promotor Roberto Bodini, a declaração do ex-subsecretário da Receita Municipal, Ronilson Bezerra Rodrigues, apontado como chefe da chamada máfia dos fiscais, serve como "prova" e será investigada.
Em editorial neste sábado, a Folha sustenta as suspeitas contra o ex-prefeito. Leia:
Kassab se complica
Em conversas gravadas com autorização da Justiça, fiscais sugerem que o ex-prefeito tinha conhecimento de esquema de corrupção
Se para 2014 já não eram estimulantes as perspectivas eleitorais do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (PSD), elas se rebaixaram ainda mais após serem reveladas gravações de conversas dos acusados de integrar a chamada Máfia do ISS (Imposto sobre Serviços).
Noticiado há uma semana, o esquema de corrupção alcançou dimensão impressionante. Estima-se que os cofres públicos tenham perdido pelo menos R$ 500 milhões em impostos que deveriam ter sido recolhidos por diversas empresas, mas que não foram pagos devido à intervenção de quatro fiscais responsáveis pela arrecadação.
Estes, em troca de polpudas propinas, agiam na contramão de seu dever funcional e livravam as empresas de parte das obrigações tributárias. Calcula-se que, desde 2007, o grupo tenha acumulado um patrimônio de R$ 80 milhões.
A Controladoria Geral do Município, órgão criado pelo prefeito Fernando Haddad (PT), não precisou de muito esforço para perceber a incompatibilidade entre os vencimentos e a riqueza desses servidores. Investigações posteriores, feitas pelo Ministério Público, levaram à prisão dos quatro fiscais.
Como três deles ocuparam cargos de confiança na administração passada, Kassab logo se viu chamuscado pelo episódio, embora Haddad tenha reiterado que não havia indícios de envolvimento das autoridades políticas.
Uma semana depois, Kassab aparece em meio a um incêndio de grandes proporções. Gravações autorizadas pela Justiça e obtidas por esta Folha trazem diálogos com potencial devastador.
"Chama o secretário e o prefeito com quem eu trabalhei. Eles tinham ciência de tudo", afirma Ronilson Bezerra Rodrigues, acusado de liderar o grupo, em conversa com a chefe de gabinete da secretaria de Finanças da gestão anterior. Não parece haver dúvidas de que o "prefeito" citado é Kassab.
Em outra gravação, os termos são ainda mais explícitos. Um homem não identificado diz: "Minha esperança é Kassab ganhar a eleição para governador". O fiscal Luis Alexandre Magalhães concorda: "É, pois é, aí tá todo mundo bem". Então o primeiro lamenta: "Mas acho que ele não ganha, não".
De fato, Kassab não reunia condições reais de disputar o cargo em 2014. Sua intenção era fortalecer a bancada do PSD e manter seu nome na cabeça dos eleitores. Agora, até essa estratégia está em xeque.
Ainda que o ex-prefeito declare serem falsas as afirmações dos servidores e mesmo com os sinais de que o esquema era suprapartidário, será difícil para Kassab desvincular sua imagem desse escândalo.
Para que esse ponto seja esclarecido, bem como o eventual envolvimento de outros políticos, a investigação precisa avançar com a maior celeridade possível, sem recair no vício de transformar-se em arma de perseguição, ou preservação, partidária.
