Ex-presidente recebe, de uma vez só, oito títulos
doutor honoris causa de universidades do país vizinho; em discurso de
agradecimento no Senado argentino, Lula ironizou o fracasso das
políticas econômicas de austeridade na Europa e Estados Unidos; "Os que
hoje estão em crise sabiam resolver todos os problemas do meu país",
disse; para ele, é preciso governar com claros compromissos de classe;
"Um dos grandes problemas que vivemos hoje é a falta de decisão
política, porque faltam líderes políticos", analisou, sinalizado uma
saída: "Deem menos dinheiro para salvar os bancos e mais para salvar
vidas humanas"
Do Instituto Lula
- O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu, nesta sexta-feira
(17), oito títulos de doutor honoris causa, na Argentina. As
universidades de Cuyo, San Juan, Córdoba, La Plata, Tres de Febrero,
Lanús, San Martín e a Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais
homenagearam o ex-presidente em uma cerimônia que aconteceu no Senado
argentino.
Em seu discurso, Lula lembrou que o primeiro diploma que desejou foi o
de torneiro mecânico, do qual sua mãe tinha muito orgulho. "A emoção ao
receber este primeiro diploma foi a mesma ao receber meu segundo
diploma, o de Presidente da República", lembrou ele. Para Lula, os oito
títulos recebidos hoje reviveram aquela emoção.
"Esses títulos não são um reconhecimento [apenas] ao Lula, mas a uma
década de transformações democráticas que viveu o Brasil, a Argentina e
toda América Latina", disse. Ele lembrou também o papel crucial do
"companheiro Néstor Kirchner" neste processo e dedicou a homenagem ao
ex-presidente argentino. "Néstor, esses títulos também são para você".
O ex-presidente Lula falou também da importância da integração
latino-americana, um dos focos de trabalho do Instituto que fundou.
"Temos que trabalhar juntos, destruindo as barreiras que nos separam e
construindo pontes que nos unam", afirmou. Ele incentivou maior
cooperação entre as universidades brasileiras e argentinas e homenageou
os professores e alunos das universidades argentinas que lutaram contra a
ditadura militar. Lula falou do papel crucial das relações entre Brasil
e Argentina para a integração e brincou dizendo que a Argentina só não
pode fazer na Copa do Mundo o que o Boca Juniors fez com o Corinthians
na última quarta-feira, ou haverá um grande problema para a integração.
Lula terminou seu discurso falando da crise internacional. "Os que
hoje estão em crise, sabiam resolver todos os problemas do meu país",
declarou. Ele falou da falta de peso das decisões dos organismos
multilaterais e afirmou que "um dos grandes problemas que vivemos hoje é
a falta de decisão política, porque faltam líderes políticos". E
terminou apontando uma saída para a crise: "Deem menos dinheiro para
salvar os bancos e mais para salvar vidas humanas".
O senador Daniel Filmus, presidente da Comissão de Relações
Exteriores e Culto do Senado argentino, fez o discurso inicial em que
declarou que os títulos estavam sendo entregues a "um homem que lutou
contra a adversidade". Ele também lembrou que é a primeira vez que a
Argentina tem 30 anos ininterruptos de democracia. Filmus reconheceu que
os argentinos sempre foram ensinados a ter medo do Brasil e que Lula
teve um importante papel em desfazer essa imagem. "Hoje, tirando no
futebol, não temos grandes disputas", brincou.
O senador terminou seu discurso falando da importância das lutas
pontuais e constantes dos homens e afirmou que Lula é "um homem
imprescindível ao Brasil, para os mais humildes, para os que lutam pela
paz no mundo, para Argentina e para toda a América Latina".
Os oito reitores entregaram os certificados dos títulos a Lula e o
vice-presidente argentino, Amado Boudou, homenageou Lula com a Menção
Honrosa Domingo Faustino Sarmiento. Boudou destacou a importância do
desenvolvimento de um corpo de pensamento próprio da América Latina e
lembrou a histórica decisão de Lula e Néstor Kirchner de dizer não à
Alca e optar por uma integração regional.
Reunião com reitores
Antes da cerimônia, Lula se reuniu brevemente com os reitores das
universidades que propuseram os títulos. Lula abriu a reunião falando da
honra de receber a homenagem, mas também da responsabilidade que vem
com isso. Cada um dos dirigentes universitários falou de suas realidades
locais e dos motivos para a escolha do ex-presidente brasileiro. Carlos
Ruta, reitor da Universidade de San Martín, disse que Lula é um
"símbolo para nossos jovens, que precisam de exemplos de dignidade". O
vice-presidente Amado Boudou falou da importância do ato para a "Luta
contra o colonialismo intelectual, que talvez seja o mais profundo
colonialismo". Lula citou duas revoluções da educação brasileira: o
Prouni e a aprovação da política de cotas, que permitiram um acesso
muito mais democrático à educação.
A Iniciativa América Latina
O governo Lula (2003-2010) promoveu uma remodelação na política
externa brasileira, ampliando as trocas comerciais com parceiros
diversificados, em todos os continentes. Nesse processo, os países da
América Latina e do Caribe desempenharam, desde cedo, papel importante.
Enquanto presidente, Lula fez 114 viagens aos países da região, que
resultaram num aumento de quatro vezes no saldo comercial com a região,
que saltou de cerca de dois bilhões, em 2002, para oito, em 2010. Tanto
as importações quanto as exportações aumentaram durante o período de
governo Lula.
O Instituto Lula se propõe a trabalhar em prol de uma maior
integração latino-americana, uma integração que não se restrinja apenas
ao plano comercial e que não seja assimétrica, mas que possa tornar a
América Latina e o Caribe um polo de poder, condizente com a nova
geopolítica mundial, num planeta que não é mais bipolarizado. Os
desafios são inúmeros, e vão desde entraves burocráticos a dificuldades
logísticas com a infraestrutura de transportes do continente.