Beleza 349 x Feiúra 163
Marcelo Carneiro da Cunha
Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Povo de Sucupira, alvíssaras!! Custou, mas aconteceu. Obama ganhou. Ganhou a beleza, o bem, o sujeito, a humanidade. Perdeu a feiúra, o anti-humanismo, a maldade, a dor de cotovelo, a idéia de que todos são igualmente egoístas e lobos do homem. E ainda por cima de goleada, ora vejam!
349 votos no esquisito Colégio Eleitoral deles, contra 163 da ruindade. Li em algum lugar que desde Franklin Roosevelt os democratas não ganhavam por uma margem dessas. Alvíssaras. Vitória do bem pra deixar a coisa-ruim com vergonha de aparecer na sala, ao menos por uns tempos.
Tempos esses que é o que temos para o Obama mostrar o Husseim pro mundo e terminar o bloqueio a Cuba, fechar a prisão sub-indecente de Guantánamo, tirar o pessoal dele do Iraque, proibir o reggae em todo o território norte-americano. Enfim, melhorar o planeta no que ele puder, antes que a turma do deixa disso volte com tudo.
Obama presidente, ora vejam.Ouvi falar dele em uma viagem a Chicago, no ano em que concorreu e foi para o Senado. Um dos raros amigos que freqüentam a direita me falou de um Obama e eu achei que ele estivesse falando em eleições no Quênia. Obama? Barack? Que raio de nome era aquilo? Nomes fora, Obama tinha impressionado meu amigo de direita ao ponto de conquistar o voto e admiração de um sujeito que tinha votado no Bush em 2000!
Oratória incrível, jeito de gente boa, um cara diferente, carismástico, me assegurou o amigo direitista. Já na época em que ele abriu a convenção dos democratas, em 2004, começaram a falar em Obama para presidente.
Me pareceu ótimo, desde que ele topasse concorrer no Zimbabwe. Presidente americano com um nome desses?
Pois, não é que o sujeito ganhou mesmo? Ganhou. Ganhamos.Não que eu espere do Obama que ele subitamente deixe de ser americano e vire um sujeito legal, como todo mundo. Eu sinceramente acredito que os americanos têm um sistema operacional próprio, criado pela Microsoft para uso exclusivo deles. Não consigo compreender direito o jeito de pensar, de agir, de se ver o mundo. Uma sociedade que considera aquele futebol gladiador um esporte e beisebol divertido, TEM que ter outros problemas, sérios.
Mas, de qualquer maneira, talvez o Obama represente a parte da cultura americana, da sociedade americana, moldada nos ideais dos fundadores da República americana. Humanistas, Iluministas, grandes reformadores em uma época duríssima, idealizadores de uma nação modelada segundo uma noção de beleza que vi nos apoiadores de Obama em seus super-comícios. Uma beleza sustentada pela idéia de que um país é para todos, que somos mais felizes quando gostamos uns dos outros em nossa diversidade, que somos maiores do que nós mesmos quando apoiamos grandes causas, que arriscar chegar perto dos nossos irmãos é mais rico do que o medo que sentimos dos desconhecidos. A beleza que existe no multirracialismo, no multiculturalismo, no multi-tudo, em oposição à feiúra monocromática, branca, das multidões republicanas, McCainianas e, ainda mais feias, Palinianas.
Um outro amigo de direita me disse que é um absurdo chamar a esquerda de bonita e a direita de feia. Mas alguém aí já olhou para as fotos dos neo-nazistas? Das gracinhas da Ku Klux Klan? Das multidões islâmicas pregando o ódio ao mundo? De uma torcida organizada, daqueles que se intitulam suavemente de Máfia alguma coisa?
São, sim, feias as direitas. Assume uma expressão de feiúra quem odeia. Além de feio, odiar traz rugas, pensem nisso moças de extrema-direita. É feio ser racista, anti-semita, anti-humanista, supremacista, anti-gremista. É feio ser norte-coreano e gostar de bomba, é feio ser europeu e odiar árabes imigrantes e pobres. É feio ser sulista e não gostar de quem não é. É feio ser rico e detestar pobre. É feio ser hétero e negar o casamento aos que não são. É feio ser cristão e odiar todos os que não são ou não querem ser.
Tudo isso existe no campo republicano (bom, nem tudo. Não existem provas de que eles sejam ou tenham sido anti-gremistas, por exemplo). E eles perderam.
Portanto, e ao menos por uma semana, vamos nos permitir uma sensação de alegria e alívio. Algo que sentimos lá atrás, quando o Lula ganhou a primeira eleição e o PT ainda era tão bonito quanto as multidões que vimos nos comícios do Obama.
Nesses dias o bem goleou e o mal se mandou pro escuro, onde ele vive e se prepara para a tomada final e a conquista da Libertadores. Alvíssaras, por enquanto. Porque estar vivo nessas horas é um privilégio, porque a sensação de que a humanidade tem jeito é ótima, mesmo que tão efêmera. Porque a feiúra está ali atrás da porta, mas, por isso mesmo, invisível, mesmo que tão feia e poderosa quanto sempre. Ela está atrás da porta, e não no comando dos Marines, e, portanto, fraca.
Vamos aproveitar e comemorar o que der, e preparar a próxima luta. Porque ela vem, todos sabem, e vem que vem. Mas, por hora, alvíssaras!!!
Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe". Fale com Marcelo Carneiro da Cunha:
Povo de Sucupira, alvíssaras!! Custou, mas aconteceu. Obama ganhou. Ganhou a beleza, o bem, o sujeito, a humanidade. Perdeu a feiúra, o anti-humanismo, a maldade, a dor de cotovelo, a idéia de que todos são igualmente egoístas e lobos do homem. E ainda por cima de goleada, ora vejam!
349 votos no esquisito Colégio Eleitoral deles, contra 163 da ruindade. Li em algum lugar que desde Franklin Roosevelt os democratas não ganhavam por uma margem dessas. Alvíssaras. Vitória do bem pra deixar a coisa-ruim com vergonha de aparecer na sala, ao menos por uns tempos.
Tempos esses que é o que temos para o Obama mostrar o Husseim pro mundo e terminar o bloqueio a Cuba, fechar a prisão sub-indecente de Guantánamo, tirar o pessoal dele do Iraque, proibir o reggae em todo o território norte-americano. Enfim, melhorar o planeta no que ele puder, antes que a turma do deixa disso volte com tudo.
Obama presidente, ora vejam.Ouvi falar dele em uma viagem a Chicago, no ano em que concorreu e foi para o Senado. Um dos raros amigos que freqüentam a direita me falou de um Obama e eu achei que ele estivesse falando em eleições no Quênia. Obama? Barack? Que raio de nome era aquilo? Nomes fora, Obama tinha impressionado meu amigo de direita ao ponto de conquistar o voto e admiração de um sujeito que tinha votado no Bush em 2000!
Oratória incrível, jeito de gente boa, um cara diferente, carismástico, me assegurou o amigo direitista. Já na época em que ele abriu a convenção dos democratas, em 2004, começaram a falar em Obama para presidente.
Me pareceu ótimo, desde que ele topasse concorrer no Zimbabwe. Presidente americano com um nome desses?
Pois, não é que o sujeito ganhou mesmo? Ganhou. Ganhamos.Não que eu espere do Obama que ele subitamente deixe de ser americano e vire um sujeito legal, como todo mundo. Eu sinceramente acredito que os americanos têm um sistema operacional próprio, criado pela Microsoft para uso exclusivo deles. Não consigo compreender direito o jeito de pensar, de agir, de se ver o mundo. Uma sociedade que considera aquele futebol gladiador um esporte e beisebol divertido, TEM que ter outros problemas, sérios.
Mas, de qualquer maneira, talvez o Obama represente a parte da cultura americana, da sociedade americana, moldada nos ideais dos fundadores da República americana. Humanistas, Iluministas, grandes reformadores em uma época duríssima, idealizadores de uma nação modelada segundo uma noção de beleza que vi nos apoiadores de Obama em seus super-comícios. Uma beleza sustentada pela idéia de que um país é para todos, que somos mais felizes quando gostamos uns dos outros em nossa diversidade, que somos maiores do que nós mesmos quando apoiamos grandes causas, que arriscar chegar perto dos nossos irmãos é mais rico do que o medo que sentimos dos desconhecidos. A beleza que existe no multirracialismo, no multiculturalismo, no multi-tudo, em oposição à feiúra monocromática, branca, das multidões republicanas, McCainianas e, ainda mais feias, Palinianas.
Um outro amigo de direita me disse que é um absurdo chamar a esquerda de bonita e a direita de feia. Mas alguém aí já olhou para as fotos dos neo-nazistas? Das gracinhas da Ku Klux Klan? Das multidões islâmicas pregando o ódio ao mundo? De uma torcida organizada, daqueles que se intitulam suavemente de Máfia alguma coisa?
São, sim, feias as direitas. Assume uma expressão de feiúra quem odeia. Além de feio, odiar traz rugas, pensem nisso moças de extrema-direita. É feio ser racista, anti-semita, anti-humanista, supremacista, anti-gremista. É feio ser norte-coreano e gostar de bomba, é feio ser europeu e odiar árabes imigrantes e pobres. É feio ser sulista e não gostar de quem não é. É feio ser rico e detestar pobre. É feio ser hétero e negar o casamento aos que não são. É feio ser cristão e odiar todos os que não são ou não querem ser.
Tudo isso existe no campo republicano (bom, nem tudo. Não existem provas de que eles sejam ou tenham sido anti-gremistas, por exemplo). E eles perderam.
Portanto, e ao menos por uma semana, vamos nos permitir uma sensação de alegria e alívio. Algo que sentimos lá atrás, quando o Lula ganhou a primeira eleição e o PT ainda era tão bonito quanto as multidões que vimos nos comícios do Obama.
Nesses dias o bem goleou e o mal se mandou pro escuro, onde ele vive e se prepara para a tomada final e a conquista da Libertadores. Alvíssaras, por enquanto. Porque estar vivo nessas horas é um privilégio, porque a sensação de que a humanidade tem jeito é ótima, mesmo que tão efêmera. Porque a feiúra está ali atrás da porta, mas, por isso mesmo, invisível, mesmo que tão feia e poderosa quanto sempre. Ela está atrás da porta, e não no comando dos Marines, e, portanto, fraca.
Vamos aproveitar e comemorar o que der, e preparar a próxima luta. Porque ela vem, todos sabem, e vem que vem. Mas, por hora, alvíssaras!!!
Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe". Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: