Boato sobre fim do Bolsa Família não é o primeiro –
e certamente não será o último – a arrepiar o Brasil; nos tempos da
inflação alta havia o "boato da quinta-feira", como classificou Delfim
Netto; intenção era criar cenário para a especulação; hoje, espalha-se
na mídia tradicional que o desemprego ronda a economia, mas na verdade
houve a criação de 200 mil novas vagas no mês de abril; jornais e tevês
propagandeiam disparada da inflação, mas taxa de 6,49% para os últimos
doze meses a coloca na meta; em 1989, Lula foi carimbado como futuro
sequestrador da poupança, porém gesto foi praticado por Fernando Collor;
em 2010, Fernando Haddad viu-se alvo de um disparo virtual de um
colaborador da campanha de José Serra, segundo o qual o Enem seria
cancelado; multiplicação da mentira sobre fim do Bolsa Família indica
padrão do que será usado contra a reeleição de Dilma Rousseff: baixaria,
confusão e risco às instituições; boatos e rumores, afinal, são primos
de atentados e violência
247 – Brincar com o fogo dos boatos, mexer com
os ânimos de multidões e colocar instituições em risco nunca deixaram de
ser hábitos da política brasileira. A julgar pela desinformação jogada
nas redes sociais, na sexta-feira 17, de que o governo iria suspender,
de imediato, os pagamentos do programa Bolsa Família, esse jogo
deletério continua vivo, forte e em plena operação. A 17 meses das
eleições presidenciais de outubro do próximo ano, o que se viu agora
pode ter sido a repetição de um filme que tende, infelizmente, a não
sair de cartaz até a hora do voto numa disputa que já se anuncia
polarizada entre uma aglutinação de partidos de esquerda em torno da
presidente Dilma Rousseff e seus adversários no canto oposto do ringue
ideológico.
Na primeira eleição do Brasil pós-ditadura militar, em 1989, o então
candidato Lula teve de se defender, em grande parte do campanha, desse
adversário invisível. Correu de boca em boca, não se sabe a partir de
qual ponto inicial, que Lula iria sequestrar a poupança dos brasileiros.
Na verdade, o gesto foi praticado, no primeiro dia de governo, por seu
adversário Fernando Collor, que venceu a disputa em segundo turno.
Dois anos atrás, quando escalava rapidamente as taxas de intenção de
votos nas pesquisas eleitorais, o hoje prefeito de São Paulo Fernando
Haddad foi alvo do mesmo veneno. A partir de um disparo nas redes
sociais, espalhou-se na reta final de uma eleição disputada cabeça a
cabeça que o exame do Enem estava cancelado. Soube-se, pouco mais tarde,
que o boato saíra de um programador terceirizado da campanha do tucano
José Serra, mas até que se provasse a origem, todo o ônus dos
desmentidos recaiu sobre o governo e a campanha petista.
BOATO DA QUINTA-FEIRA - Não é apenas na política que
os boatos são usados como arma para a instalação de grandes celeumas.
Nos tempos da inflação disparada, na década de 1980, os rumores sobre
medidas econômicas radicais eram sempre espalhados num determinado dia
da semana, quase todas as semanas. "É o boato da quinta-feira",
divertia-se o ex-ministro Delfim Netto, que passou a desdenhar da
insistência com que as informações falsas eram transmitidas.
Mais recentemente, boatos passaram a circular às sextas-feiras,
especialmente em Brasília, envolvendo os temas das capas das revistas
semanais que circulam ao sábados. Durante o governo Lula, o
diz-que-diz-que demolidor sobre escândalos no governo era constantemente
assoprado na forma de descobertas espetaculares feitas por jornalistas,
ora da revista Veja, ora da concorrente Época, dos grupos Abril e
Globo. Mas o volume de rumores sempre foi muito maior do que o da
informação verdadeira.
Antes dos boatos, o Brasil, igualmente no período da
redemocratização, viveu a fase dos atentados. Para impedir a abertura
política, personagens ligados ao regime militar passaram, nos anos 1980,
a incendiar bancas de jornais, em grandes cidades, que vendiam jornais
legais de partidos políticos que ainda era clandestinos. Uma
carta-bomba, no mesmo período, foi enviada à sede da OAB no Rio de
Janeiro, matando a secretária Lídia Monteiro. Durante as eleições para
governadores de Estado, em 1982, julho tornou-se um mês de apagões de
energia, cujas justificativas técnicas nunca foram apresentadas.
Percebe-se, assim, que violência e boatos são prinos.
ECONOMIA FUSTIGADA - Antes do boato sobre o fim do
Bolsa Família, o mercado financeiro, dois meses atrás, foi abalado pela
circulação de rumores, em torno de um discurso da presidente Dilma no
exterior, de que o governo passara a não ter mais interesse em controlar
a inflação. O resultado foi uma intensa movimentação especulativa no
mercado de juros. Na reunião seguinte do Copom, para discutir a elevação
ou não da Selic, o que se viu foi uma subida de 0,5 ponto na taxa, para
muitos com relação direta ao boato motivacional.
Há boatos correntes, estampados na mídia tradicional quase todos os
dias, sobre a explosão da inflação. O que se vê de verdade, porém, é uma
taxa dentro da meta, no mês passado de 6,49% nos últimos doze meses,
segundo o IBGE. Outro boato permanente, que tem servido de base de
análise para muitos colunistas da mídia tradicional, especialmente na
televisão, e mais particularmente na tevê Globo, versa sobre a queda nos
níveis de emprego da economia brasileira. O número divulgado por Dilma
nesta segunda-feira 20, no entanto, dá conta de quase 200 mil vagas
novas de trabalho tendo sido criadas no mês de abril – e 4,1 milhões
desde o início do seu governo. Os rumores, no entanto, são os de que a
saúde da economia brasileira está por um fio.
O problema de boatos e rumores é o de que eles têm o poder, muitas
vezes, de serem como profecias auto-realizáveis. A corrida aos guichês
da Caixa Econômica Federal, no sábado, poderia ter acarretado no
desastre de saques bilionários, o que afetaria a condição financeira de
qualquer instituição. Houve agências em que, com medo de tumultos, os
gerentes aceitaram pagar benefícios antecipadamente para não terem as
instalações depredadas.
O boato que a presidente Dilma classificou de "absurdamente desumano"
e "criminoso" teve apenas uma consequência de verdade: reafirmou a
força popular do próprio Bolsa Família, um programa assistencial que
teve um embrião tímido no governo tucano de Fernando Henrique, mas que
foi dinamizado na gestão de Lula e ampliado na administração Dilma. O
povo que correu às agências da Caixa sabe que essa conquista, a depender
do resultado das eleições presidenciais de 2014, efetivamente pode ser
ameaçada. Até lá, o boato é apenas um boato, já desmentido - e um crime.
Abaixo, notícia da Agência Brasil sobre a início das investigações,
pela Polícia Federal, sobre a origem do boato contra o Bolsa Família:
Polícia Federal abre inquérito para apurar origem de boatos envolvendo o Bolsa Família
Luciano Nascimento
Repórter da Agência Brasil
Brasília – A Polícia Federal vai investigar a origem dos boatos sobre
a suspensão dos benefícios do Programa Bolsa Família. O inquérito foi
aberto hoje (20) por determinação do ministro da Justiça, José Eduardo
Cardozo.
Após os boatos, a Caixa Econômica Federal registrou 920 mil saques de
beneficiários do programa, somente no final de semana. Foram sacados R$
152 milhões, informou a Caixa. De acordo com a instituição, o total de
saques ocorridos até esta segunda-feira segunda será confirmado amanhã
(21), depois de fechar os registros feitos nos terminais de
autoatendimento.
A presidenta Dilma Rousseff criticou hoje os boatos em torno do Bolsa
Família e assegurou o compromisso do seu governo com o programa.
"Queria deixar claro que o compromisso do meu governo com o Bolsa
Família é forte, profundo e definitivo", disse a presidenta durante
cerimônia que marcou o início da operação do navio-petroleiro Zumbi dos
Palmares, no Porto de Suape, em Pernambuco.
"É algo absurdamente desumano o autor desse boato. Além de ser
desumano, ele é criminoso. Por isso colocamos a Polícia Federal para
descobrir a origem do boato, que tinha por objetivo levar a
intranquilidade a milhões de brasileiros que nos últimos dez anos estão
saindo da pobreza extrema", ressaltou a presidenta da República.
Edição: Aécio Amado