DAVIS SENA FILHO
Ruy Mesquita morre aos 88 anos, e deixa o conglomerado familiar em situação difícil, com as finanças de algumas empresas em condições falimentar, como o Jornal da Tarde
A família Mesquita, proprietária do jornal conservador "O Estado
de São Paulo", fundado em 1875 com o nome "A província de São Paulo", é a
autêntica voz da Política do Café com Leite, no decorrer dos séculos XX
e XXI. Os Mesquita são legítimos representantes das oligarquias
paulista e brasileira e sempre se equilibraram politicamente entre o
liberalismo econômico e político e a sua associação pura e simples com
governos autocratas, a exemplo do que era a ditadura militar, o regime
mais violento infligido ao Brasil contemporâneo, e que, sobremaneira,
cooperou, e muito, para que a sociedade brasileira atrasasse em décadas
seu desenvolvimento social.
Ruy Mesquita morre aos 88 anos, e deixa o conglomerado familiar —
Jornal O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, Rádio Eldorado, Agência
Estado, OESP Gráfica e OESP Mídia — em situação difícil, com as finanças
de algumas empresas em condições falimentar, como o Jornal da Tarde,
que fechou suas portas e não tem prazo para reabrir. O prestígio de O
Estado de São Paulo não é o mesmo de décadas atrás, o que se traduz em
sua tiragem média e diária de 260 mil jornais, pouco para um jornal de
138 anos, que exerce suas atividades na capital mais populosa do País e
das Américas, bem como é a sétima do mundo, com quase 11,4 milhões de
habitantes, além dos cerca de 42 milhões de habitantes que vivem no
Estado Bandeirante.
Ruy Mesquita é da terceira geração de sua família. Certa vez afirmou
que ele e seu irmão, Júlio de Mesquita Neto (na época,
diretor-presidente do grupo e falecido em 1996), participavam de
reuniões conspiratórias, com os militares generais e comandantes do II
Exército contra o presidente trabalhista João Goulart. Evidentemente, os
Mesquita sabiam do que se tratava, pois desde 1932 conspiravam contra
os trabalhistas e seus programas de governo e projeto de País.
Em 1932, abraçaram as causas da "Revolução Constitucionalista",
acontecimento político e militar que, na verdade, tinha por propósito
derrubar o governo revolucionário de Getúlio Vargas, que liderou, em
1930, uma revolução de verdade, com o apoio, inclusive, de Minas Gerais,
estado que até então revezava o controle da Presidência da República,
no decorrer do período compreendido entre os anos 1895 e 1930, período
este chamado de República Velha ou Política do Café com Leite, por ser
São Paulo grande produtor de café e estado mais poderoso da Federação,
bem como Minas Gerais era e ainda o é o maior produtor de leite, além
de, na época, ser o estado com o maior número de eleitores do Brasil.
Como se observa, a despeito dos momentos "liberais" da família
Mesquita, sua essência política é irrefragavelmente conservadora, à
direita do espectro político e ideológico. O segundo patriarca do Grupo
Estado, Júlio Mesquita Filho, herdeiro direto do fundador da empresa
jornalística, Júlio Mesquita, participou efetivamente da "Revolução"
Constitucionalista, movimento reacionário e que foi, de forma
retumbante, derrotado pelas tropas federais e leais ao governo
revolucionário do líder estadista Getúlio Vargas. Os Mesquita, tais
quais aos Frias e aos Marinho, sempre combateram as forças políticas
populares e progressistas. Os representantes dessas forças eles chamam
de populistas e autoritários.
Contudo, a verdade é que essas considerações por parte dos barões da
imprensa, autênticos representantes da direita brasileira e estrangeira,
tornam-se inócuas quando se tratam de suas definições no que tange a
rotular os trabalhistas e os socialistas. A verdade é que esses barões
das mídias de negócios privados sempre combateram sistematicamente e
duramente a esquerda ou quaisquer políticos que se recusasse a ser
tutelado por uma burguesia cuja realidade histórica remonta a escravidão
e o controle do estado por aqueles que sempre quiseram o Brasil com uma
gigantesca fazenda, a dar lucros e dividendos a uma das "elites" mais
cruéis do planeta.
Não convence, nem mesmo a uma criança, que os Mesquita romperam com
os golpistas de 1964 um ano após a queda de Jango, presidente
trabalhista herdeiro de Getúlio. Lobos também brigam com lobos, bem como
integrantes de uma mesma família também se estranham e por algum tempo
se afastam. A direita briga com a direita, assim como a esquerda se
desentende com a esquerda. É normal e natural, pois os seres humanos
divergem, mesmo quando são integrantes de um mesmo grupo, defendem os
mesmos propósitos e, no caso dos Mesquita, possuem a mesma ideologia,
pelo menos naquele momento e fato histórico, dos militares. Quero dizer
que os Mesquita são de direita. É inegável. Ponto.
Somente os ingênuos ou os ignaros pensam que liberais conservadores
como os empresários Ruy Mesquita e Júlio Mesquita Neto em algum momento
romperam com os militares porque perceberam que os golpistas de 1964
iriam, na verdade, implantar uma ditadura militar; e eles, inconformados
com tal realidade, resolveram se afastar dos militares, dos barões da
indústria, dos donos do agronegócio e dos banqueiros que apoiaram o
golpe porque se consideravam, incontestavelmente, democratas e cidadãos
politicamente progressistas e ideologicamente à esquerda dos militares e
dos homens ricos controladores do PIB nacional. Haja receita de bolos e
tortas e poemas para demonstrar tanta coragem, inconformismo e apreço
às liberdades civis e à democracia.
Os Mesquita logo se recompuseram, e trataram de "fazer as pazes" com
aqueles que, simbolicamente e concretamente, pensam como eles e agem
como eles, no caso os militares golpistas, porque foram cúmplices do
golpe de estado, bem como ajudaram a edificar o estado ditatorial. Ou
alguém tem dúvida? Os "milicos" saíram do poder e os Mesquita
continuaram a fazer uma política sistemática e inapelavelmente de
oposição, principalmente a partir de 2003. Os Mesquita e seus sócios,
sob a liderança editorial do Ruy, transformaram mais uma vez o Estadão
em um integrante do "Partido da Imprensa", feroz e invariavelmente
desonesto intelectualmente. Vale lembrar que a mesma estratégia tais
barões da imprensa usaram contra os governos trabalhistas de Getúlio
Vargas e João Goulart.
Mais do que propósitos e crenças é necessário compreender que os
magnatas da imprensa de mercado são conservadores e defendem, sobretudo,
os interesses de grupos econômicos, de classe social e, obviamente, de
governos colonialistas, a exemplo dos EUA e da Inglaterra. Ponto. No
período dominado politicamente e eleitoralmente pelos trabalhistas, a
partir da vitória de Lula ao cargo de presidente, em 2002, e da ascensão
de Dilma Rousseff ao poder, em 2010, o Estadão passou a fazer uma
oposição sem trégua, sistemática e disposta a nunca considerar as
conquistas sociais e econômicas do povo brasileiro, que são visíveis,
reais e reconhecidas em todo o planeta.
Entretanto, ao contrário dos Frias, donos da Folha de S. Paulo, e dos
Marinho, proprietários das Organizações(?) Globo, Ruy Mesquita e seus
empregados de confiança assumiram o apoio e "faizeram campanha"
favorável ao candidato de direita e da direita, o tucano José Serra, que
foi derrotado por Dilma Rousseff. Tal barão da imprensa pelo menos foi
sincero e ratificou e reconheceu que o seu jornal é de oposição aos
governos de Lula e Dilma, como o foi, lembro novamente, adversário e até
mesmo inimigo de Getúlio Vargas e João Goulart. É a história a se
repetir em termos de combate ao campo trabalhista.
Acontece que o Estadão apenas oficializou sua opção política,
ideológica e partidária, porque os Mesquita, nas pessoas de Júlio
Mesquita, Júlio Mesquita Filho, Júlio Mesquita Neto, Ruy Mesquita e
agora Francisco Mesquita Neto, primo do Ruy, e atual presidente do Grupo
Estado, vão continuar seu périplo conservador, de direita, sempre a
serviço dos interesses dos ricos, dos muitos ricos e dos governos dos
países hegemônicos e de caráteres imperialistas. Quem vem da República
Velha nunca muda, e por isto e por causa disto sempre devem ser
combatidos pelas forças progressistas. Os Mesquita, os Frias e os
Marinho são democratas de fachada e portadores de conservadorismo na
veia. É isso aí.