02 outubro 2009

Vice-governador acusa Yeda de usar campanha "para fazer poupança"
Flávio Ilha
Especial para o UOL Notícias
Em Porto Alegre
O vice-governador do Rio Grande do Sul, Paulo Afonso Feijó (DEM) , disse em depoimento ao Ministério Público Federal que a governadora Yeda Crusius (PSDB) pediu que ele renunciasse da candidatura ao governo em 2006 para não "atrapalhar seus planos para se beneficiar com as doações de campanha".
O depoimento, gravado em vídeo no dia 4 de junho passado, foi apresentado na sessão desta quinta-feira da CPI da Corrupção, que investiga denúncias de desvio de recursos públicos no governo gaúcho. Segundo Feijó, a então candidata disse a ele que campanha eleitoral era época "para fazer poupança".
O governo gaúcho não comentou o fato. Feijó diz também no depoimento ao MPF que a governadora pediu a ele que renunciasse à candidatura porque "o jogo já estava ganho". Segundo o relato, a então candidata pediu a renúncia a Onyx Lorenzoni, presidente estadual do DEM, e a Jorge Bornhausen, presidente nacional da sigla. Como nenhum dos dois aceitou, Yeda pediu ao próprio Feijó que renunciasse. O vice não esclareceu quando o pedido foi feito. Desde que assumiram o governo, Yeda e Feijó mantiveram uma relação explícita de conflito.
"Tu não és desse ramo e está atrapalhando nosso processo", teria dito a então candidata ao governo gaúcho segundo o relato de Feijó no vídeo. Perguntado por um agente do MPF se ele estava atribuindo a frase a alguém, o vice foi taxativo: "Sim, a candidata Yeda Crusius. Ela própria", disse Feijó.

O trecho exibido tem pouco mais de quatro minutos de duração. Feijó depôs no MPF espontaneamente para explicar os contratos de sua empresa com uma universidade privada quando já era vice-governador.

No trecho apresentado, Feijó se refere a um encontro que ele teve com o então tesoureiro da campanha de Yeda Crusius, Rubens Bordini, para receber doações. O encontro foi marcado num sábado, num dos hotéis mais elegantes de Porto Alegre. "Depois de almoçarmos, eu soube pelo Bordini que os recursos já haviam sido transferidos para o marido da candidata, professor Carlos Crusius", relatou.

O vice-governador pediu que Bordini confirmasse por e-mail o repasse. Ele não informou no depoimento se há um e-mail confirmando a entrega dos recursos a Carlos Crusius. "Esse dinheiro foi um dos tantos que não apareceu na campanha", disse Feijó.

Segundo ele, em outras doações aconteceu a mesma coisa. "Eu soube que o Chico Fraga [então um dos coordenadores da campanha] trouxe [doações] em dinheiro e parte não foi lançada. O dinheiro do Lair [Ferst] também não entrou. Não digo que tudo foi desviado, mas talvez tenham lançado 10% e o resto desapareceu", disse. "Simplesmente não lançaram", descreveu.

O vídeo foi apresentado em substituição ao depoimento do secretário-adjunto de Administração, Genilton Macedo Ribeiro, que apresentou um atestado médico e não foi à CPI. Ribeiro, que havia confirmado seu depoimento, seria a primeira testemunha da CPI. Com a ausência de Ribeiro, os parlamentares da base de apoio da governadora se retiraram do plenário.
O atestado médico, entregue à presidente da CPI Stela Farias (PT) às 16h e com data de 31 de outubro, indica que Ribeiro tem uma "patologia incapacitante" que o impede de se locomover e realizar atividades externas por quatro dias. O atestado é assinado pelo médico Nelson Tombini, que é traumatologista e diretor do Hospital Cruz Azul.
"Não estamos aqui para brincadeiras e nem temos cara de palhaço", reclamou Stela. Ela denunciou um boicote da bancada governista ao trabalho da CPI. O deputado Daniel Bordignon (PT) acusou o atestado de ser falso e ameaçou Ribeiro com um processo por falsidade ideológica. "Isto aqui é uma CPI, é um instrumento oficial de investigação", disse.
O deputado Coffy Rodrigues (PSDB), relator da CPI, reclamou que a presidente trocou a ordem dos depoimentos que foram acordados por governo e oposição na semana passada. "Estou me sentindo prejudicado no meu trabalho de relator", disse.