10 julho 2009

Não se engane: viver é lutar
Sempre enxerguei na vida sindical e nas lutas travadas ao longo de tantos anos de militância e de trabalho sério excelentes oportunidades para que os trabalhadores pudessem avançar na conquista de seus direitos, por melhores condições de vida, na construção de um diálogo fluido, transparente e exitoso com o empresariado ou a administração pública. Trocando em miúdos: pela via de um sindicalismo ético e combativo se consegue muito para todos: os trabalhadores e a sociedade.Mas antes de entrar com coragem e coração no movimento sindical em Goiás, vivi uma experiência fundamental para minha formação de homem e para que se forjasse em mim o sentimento pleno da cidadania e da brasilidade. Estudante da Universidade Católica de Goiás, cursando Matemática, ingressei no movimento pela anistia. Não a queria restrita, parcimoniosa, seletiva, como pretendia a ditadura que já se mostrava decaída e desgastada. Nossa bandeira era óbvia: ampla, geral e irrestrita!E Goiás havia sofrido como poucos Estados no Brasil com o regime de 64. Cassações, prisões, torturas, o sobrevoo rasante de jatos ameaçando de bombardeio o Palácio das Esmeraldas com o povo na praça e o governador cassado resistindo bravamente aos desígnios da ditadura que se inaugurava. Isso sem falar na sucessão de péssimos interventores travestidos de governadores que a ditadura nos impôs. Portanto, anistia era um tema caro e profundo, de transcendental importância para o goiano e todos os brasileiros.Moldava minha estrutura intelectual aprendendo nas salas de aula da Católica e minha conscientização política lutando nas ruas de Goiânia e das cidades do interior de Goiás. Bons tempos.Está viva na memória, de forma cristalina, a reestruturação do Centro dos Professores de Goiás, o CPG, que funcionava na Avenida Araguaia, com participações decisivas dos companheiros Niso Prego, Getúlio, Osmar Magalhães, Cleovam Siqueira, Zezé, Delza, Luci Lobo, Benevides etc. Tínhamos, apesar da simplicidade de sindicalistas jovens e lutadores sociais, a exata noção do momento histórico que protagonizávamos. Dali, saímos Goiás afora para tornar o CPG conhecido e ganhar a confiança, o apoio, e congregar nossa classe em torno de objetivos maiores e da luta que se avizinhava. Não foi fácil, mas vencemos. Fizemos uma extraordinária assembleia com milhares de professores na Igreja Matriz de Campinas e ouvindo um por um, elencamos as reivindicações de toda a categoria. A participação foi maciça, entusiástica e decidida. O CPG inaugura uma nova fase no sindicalismo goiano: coordenando greves, discutindo a situação do setor educacional, inserindo-se de forma decente e respeitável na vida institucional do Estado. Foi nessa época que nós elaboramos e aprovamos o Estatuto do Magistério, na Assembleia Legislativa, que foi uma grande conquista para o ensino em Goiás. Nunca, antes e em tempo algum, o magistério de Goiás havia se engajado na discussão das questões de sua área, desde os salários até a qualidade do ensino. Estávamos, todos, imbuídos por uma educação cada dia melhor, inclusive no combate ao trabalho infantil com o lema “Lugar de criança é na escola”. Éramos mais professores e, ao mesmo tempo, também nos convertíamos em mais cidadãos. Uma metamorfose ambulante, diria (ou cantaria) o saudoso e genial Raul Seixas! Vem daí, tenho certeza, o invejável nível do professorado goiano, um dos mais preparados do Brasil.Na virada dos anos 1970 e início da década de 1980, depois de participar da fundação do PT, lá vou eu para nova luta: a coordenação e direção nacional do movimento pró-CUT, que nos levou à fundação da Central Única dos Trabalhadores. Exerci por seis anos a direção daquela central sindical em Goiás, sendo, ao mesmo tempo, seu vice-presidente nacional para a região Centro-Oeste, englobando Brasília, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além de Goiás, é claro. As tarefas se sucederam e a CUT ocupou boa parte da minha vida. Mas, com um enorme prazer, fui também seu secretário sindical, seu secretário de finanças e seu diretor-executivo. Parece que foi ontem, mas já são décadas...Palmilhei o território desse País-continente por dezenas de vezes. Quantas? Perdi a conta, embora recorde cada voo, cada viagem de ônibus ou na boleia de caminhão, cada hotelzinho sem estrela, pensão simples ou generosa acolhida na casa simples de humildes companheiros de cidades perdidas na imensidão do Brasil. Começava a viver a luta numa simbiose impressionante: agora, ela era minha própria vida. E, quando me dei conta, nem se quisesse (e nunca quis) poderia dar um passo atrás.Estávamos vivendo os estertores do regime militar implantado em 64. Se ainda existia um general-presidente e o aparelho repressor está intacto, também já se respirava o ar da liberdade e se antevia no horizonte a perspectiva da abertura democrática. Os sindicatos, tutelados pela máquina pesada do Ministério do Trabalho, davam mostras de oxigenação e voltavam a representar de forma plena os interesses da classe trabalhadora. Nesse Brasil, em que os trabalhadores rurais lutavam pela conquista da Reforma Agrária, onde metalúrgicos do ABC Paulista paravam as máquinas e mudavam o curso da história, os professores goianos iam à greve com impressionantes decisão e coragem, protagonizando lutas memoráveis e colhendo avanços e conquistas que ainda hoje aí estão. Nada me faz sentir tão em casa quanto participar de reuniões e seminários de sindicatos para quais sou convidado. Esta semana mesmo, na Assembleia Legislativa de Goiás, tive a honra de rever inúmeros amigos no seminário organizado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Vigilantes e pela Federação dos Vigilantes do Estado de Goiás. Estavam lá companheiros de tantas lutas, como Vicente Lourenço, Boa Ventura, Tomé, Joãozinho e vários outros que sempre atuaram em defesa dos trabalhadores, na construção da CUT e no fortalecimento de sindicalismo combativo como instrumento de representação da classe trabalhadora. Conquistas que, há mais de 30 anos, constituem a razão do nosso esforço em busca de um País cada dia mais justo, e menos desigual. Ainda há muito a fazer e muito a conquistar. Pois, não se engane: viver é lutar.
Delúbio Soares é professor (companheirodelubio@gmail.com)