18 junho 2009

A longa crise da USP. E a intransigência de Serra
Por Zé Dirceu

Campus da USP

A cada dia que escrevo, faço-o na esperança de que no dia seguinte não terei de fazê-lo e de que tudo estará resolvido. Mas a realidade é bem outra e persiste até hoje o impasse numa das mais credenciadas e maiores universidades do país, a de São Paulo (USP), ocupada por tropas policiais por determinação do governador-presidenciável tucano José Serra, em decorrência da greve dos servidores, deflagrada há 42 dias, e dos estudantes, iniciada há 15 dias.
Como eu disse aqui em ocasiões anteriores, esse impasse - o confronto entre funcionários e estudantes de um lado, e policiais de outro, que resultou em seis pessoas feridas na semana passada - e a continuidade da ocupação do campus por forças policiais constituem uma prévia, uma demonstração do que seria o Brasil se José Serra chegasse a ser presidente da República.
Nessa aposta que faz pela continuidade da crise, na intransigência e na falta de diálogo com os que protestam e reivindicam, Serra nos traz uma amostra de seus métodos de governar, de seu autoritarismo, de sua incapacidade de dialogar e de negociar. Com ele, movimentos sociais e reivindicatórios tem que ser tratados na linha dura. Com Serra regredimos aos anos 30 do século passado, quando a questão social era considerada caso de polícia.
Serra radicaliza com a complacência da imprensa
É claro que o governador paulista não faz isso gratuitamente. Age dessa forma apostando na complacência e mesmo no apoio da mídia conservadora. Fosse outra a postura da imprensa, de noticiar com destaque a violência policial do confronto que ocorreu no campus da USP, a intransigência do governador e sua completa frieza e incapacidade de lidar com movimentos sociais, ele rapidamente teria adotado outro posicionamento, teria recebido, dialogado com os grevistas e posto um fim ao impasse. Mas, como a mídia só vê radicalismo da parte dos grevistas...
Como conta com as vistas grossas de grande parte da imprensa, o governador mantém essa situação, de certa forma inédita nos quase 80 anos de existência da USP. Salvo a caça às bruxas do longo período de vigência do AI-5 (1968-1979), quando professores e alunos (estes, por força do decreto-lei 477) estiveram expostos à sanha das cassações e proibições da ditadura militar, a USP nunca viveu em sua história um tão longo impasse.
Pode ter enfrentado crise em uma ou outra unidade do campus, uma greve e até invasão policial localizada durante a ditadura, mas não a universidade como um todo, não com o envolvimento de sua reitoria. O episódio de agora mostra que definitivamente o governador José Serra não sabe lidar com coisas que o contrariem. E, criado o impasse, não sabe sair dele.
Foto: Acervo USP