Carta ao secretário-geral
Após ler a entrevista concedida por José Eduardo Cardozo à edição 2048 da revista Veja, enviei para ele a seguinte correspondência:
Espero que a revista tenha distorcido tuas declarações, hipótese na qual sugiro que você envie imediatamente uma mensagem ao Partido, esclarecendo tudo.
A seguir, apresento (com cópia para outros/as militantes) minhas opiniões pessoais sobre a entrevista, sempre lembrando que me baseio no que foi publicado, mas que não necessariamente foi dito por ti.
Começo pela resposta que te atribuem sobre a sucessão de Lula: “seria absurdo para um partido com a dimensão do PT renunciar a priori a uma candidatura presidencial. (...) O PT tem de lutar para ter o candidato da aliança à Presidência (...) buscar construir uma candidatura comum. De preferência, do PT”.
Melhor seria uma resposta mais direta. O PT não abre mão de ter uma candidatura, nem a priori, nem a posteriori. Buscaremos ganhar os demais partidos para esta candidatura, mas ela não está condicionada ao apoio destes partidos.
Vale lembrar que a maior parte dos chamados “aliados” não apoiou Lula, no primeiro turno de 2002, nem no primeiro turno de 2006. Não é realista acreditar que teremos, no primeiro turno de 2010, uma candidatura comum de todos ou mesmo da maioria dos partidos aliados.
Veja, também, a resposta que te atribuem sobre a “aliança PT-PSDB” nas eleições municipais de 2008: “os principais antagonistas do PT são o PSDB e os Democratas (...) É muito difícil aceitar uma aproximação com esses partidos, que serão nossos principais adversários em 2010.”
Novamente, melhor seria uma resposta mais direta. A direção nacional do PT vai impedir alianças com nossos inimigos. Admitir o contrário (“muito difícil” não é “impossível” nem “inaceitável”) é dar força para a tese de que os partidos são todos iguais, que não há diferenças programáticas, apenas interesses subalternos e conveniências eleitorais.
É verdade que as duas respostas citadas acima (sobre 2010 e sobre alianças em 2008) contêm ambigüidades que também estão presentes nas posições de outros dirigentes do Partido. Mas há outras respostas que te atribuem, que expressam um ponto de vista muito particular, talvez conveniente para um parlamentar, mas não para um secretário-geral.
Vejamos, por exemplo, a resposta que te atribuem à pergunta sobre as eleições paulistanas: “Marta reúne condições de ganhar as eleições. Temos de convencê-la a ser candidata. Mas é legítimo que ela não queira. Se não quiser, há outros nomes, como o meu”.
Melhor seria o secretário-geral nacional do Partido evitar este tipo de postulação. Afinal, se Marta reúne as condições, qual o sentido de se apresentar publicamente como uma alternativa? Ademais, assumir o interesse numa candidatura pessoal só enfraquece o papel do secretário-geral, no sentido de ajudar a viabilizar aquela que sem dúvida é a melhor candidata para todo o Partido.
A resposta que te atribuem, sobre o tema da reforma política, afirma que “é preciso procurar diálogo com os partidos da base e da oposição na busca de um grande esforço pela reforma política. Chegou a hora de termos um pouco mais de maturidade, que nem sempre a classe política tem, para pensar um pouco mais no estado brasileiro do que em nossas disputas políticas”.
Esta linha de tratamento do problema parte do mesmo pressuposto adotado pelo prefeito Pimentel, para defender uma aliança estratégica entre PT e PSDB: a suposta existência de fundamentais interesses comuns entre nós e a oposição.
A reforma política não depende da “maturidade da classe política”, seja lá o que isso for, mas sim da mobilização das camadas populares, dos partidos e organizações de esquerda. É este um dos motivos pelos quais o 3º Congresso do PT decidiu defender a convocação de uma Constituinte exclusiva, tema que não aparece na resposta que te atribuem.
A resposta que Veja te atribui, sobre o tema dos cartões corporativos, é totalmente defensiva: “o caso dos cartões é um problema de descontrole administrativo da máquina da União”, “um problema pontual, envolvendo alguns funcionários”, “seria um erro se tentássemos carimbar no PSDB erros do governo FHC no uso dos cartões”.
Melhor seria adotar uma postura ofensiva. Lembrar, entre outras coisas, que foi nosso governo que garantiu transparência na prestação de contas. Que o PSDB gastava escondido, tanto no governo FHC quanto no governo Serra, por exemplo. Por fim, evitar “analisar situações individuais” não justifica esquecer a solidariedade do Diretório Nacional com a Matilde Ribeiro.
Lendo a entrevista como um todo, é visível que Veja faz perguntas provocativas, explorando o fato de que você foi eleito secretário-geral graças ao apoio da chapa “Construindo um Novo Brasil”, muito criticada por você durante o PED 2007, chapa onde está parte daqueles que integravam o então “campo majoritário”.
Sei, por experiência própria, que é muito difícil escapar deste tipo de provocação. Feita esta ressalva, é preciso dizer que as respostas publicadas por Veja são ruins para o Partido.
O código de ética, por exemplo. Da maneira como é posto nas respostas que te atribuem, parece que foi e deve ser esta (e não, por exemplo, o debate sobre a conjuntura e nossa política, frente aos ataques do PSDB e do DEM) a principal preocupação do Partido, no último e no próximo período.
Outro exemplo: a diferença no tratamento dado a José Dirceu e a Ricardo Berzoini.
Sobre Dirceu, te atribuem a seguinte frase: “no processo de cassação do Dirceu, olhando as provas, não havia motivos para a cassação”. Ou seja, neste caso a resposta que te atribuem segue na direção oposta à pretendida pela revista Veja.
Mas, ao mesmo tempo, a revista afirma que o PT é “presidido por um aloprado” e a resposta que te atribuem não contém uma única frase em defesa do presidente nacional do Partido. Pergunto: se foi feita uma defesa de Dirceu, por qual motivo não defender também Berzoini?
Aliás, não há defesa explícita nem de Ricardo Berzoini, nem de nenhum outro setor do Partido, salvo a chapa “Mensagem ao Partido”. Reproduzo abaixo as perguntas feitas por Veja e as respostas atribuídas a você:
Pergunta: “O senhor foi candidato à presidência do PT com a proposta de refundação do partido, de expurgar os corruptos e as práticas de corrupção. Dois meses depois de ser derrotado, assume a secretaria-geral do partido presidido por um aloprado (Ricardo Berzoini) e com influência de mensaleiros. Como explicar esta contradição?”
Resposta atribuída: “Não há contradição. A executiva do PT é formada proporcionalmente por todas as correntes. A chapa pela qual eu fui candidato, a Mensagem ao Partido, chegou em terceiro lugar e ficou com parte do comando. Garanto que todos os membros de nossa chapa no diretório nacional seguirão nossas propostas, nossa linha de conduta.Vamos defender a instituição do código de ética, o resgate da democracia partidária e a depuração ética do partido. Só aceitei assumir a secretaria-geral com estes compromissos”.
Veja insiste: “Mas é possível conseguir isso com o partido ainda dominado pelo Campo Majoritário dos ‘aloprados’?”
Resposta atribuída a José Eduardo Cardozo: “Espero que sim. Há uma percepção hoje em todas as correntes do PT de que é necessário resgatar os compromissos éticos históricos do partido”.
Na boca de um candidato à presidência nacional do Partido, no clima da disputa pública do PED, este tipo de resposta (concordemos ou não) pode ser considerada compatível. Mas da boca do secretário-geral nacional, após a montagem da nova direção partidária, espera-se uma firme defesa do PT, do conjunto da direção e do presidente nacional, seja de qual chapa forem.
Do contrário, mesmo que não seja esta a intenção, fica a impressão de que o PT divide-se em dois campos: os “éticos” e os demais. O que além de não verdadeiro, leva o debate para longe da política, onde se situam as diferenças relevantes entre os diferentes setores do Partido.
Os temas éticos fazem parte da política. Mas eles só ganham sentido pleno, quando corretamente vinculados aos temas programáticos, aos debates estratégicos, à visão de mundo das diferentes classes sociais e partidos políticos.
Claro que este ponto de vista não é compartilhado por quem acha que “a questão da ética e da falta de dimensão republicana de separar a coisa pública da coisa privada é o principal problema brasileiro da atualidade”.
Esta frase, também atribuída por Veja a você, conduz a seguinte conclusão: enxergar a luta política brasileira como um conflito entre os “éticos” e os “desonestos”. Conforme está dito, aliás, na última resposta que te atribuem.
Esta conclusão está na base do discurso hipócrita e udenista de setores da oposição, que obviamente não têm interesse nenhum em colocar em pauta o conjunto dos problemas brasileiros: a desigualdade social, o monopólio dos meios de comunicação etc.
Como disse no início, espero que a revista Veja tenha distorcido suas declarações. Por exemplo, espero que você (ao contrário do que está na entrevista) não pense que aceitar ou não o termo “mensalão” é uma questão “semântica”.
Se houve “mensalão”, se houve uma operação sistemática de “compra” de parlamentares para garantir vitórias do governo em votações do Congresso, então houve um crime que poderia justificar uma tentativa de impedimento do presidente da República. Por isso, negar a existência do “mensalão” não é um preciosismo retórico, literário, “semântico”.
Atente que a linha adotada na resposta permitiu a Veja escolher, como título da entrevista, a seguinte frase: "O mensalão existiu". Aliás, é visível a satisfação da revista com a edição dada à entrevista.
Por fim, sobre o aniversário do PT, a resposta atribuída a você afirma que temos de nos orgulhar de ser o maior partido de esquerda da América Latina. Concordo plenamente. Mas seria bom não limitar nossos feitos ao fato de “termos dirigido prefeituras”, “inovado a história administrativa brasileira”, “administrado estados importantes” e “termos elegido o primeiro presidente da República vindo da classe trabalhadora”.
Este viés exclusivamente institucional é algo que o PT precisa superar. E o secretário-geral deve ajudar nisto, elevando o olhar para o petismo que existe nos movimentos sociais e para as contribuições que demos para a vida político-cultural, no Brasil e fora do Brasil. Inclusive na luta pelo socialismo, assunto que você lembrou no PED, mas que não consta das respostas que te foram atribuídas.
Na expectativa de que a Veja tenha distorcido tuas palavras, um abraço
Recebi por e-mail do Secretário Nacional de Relações Internacionais do PT Valter Pomar