19 junho 2008

FRAUDE MILIONÁRIA NO RS
MP federal quebrou sigilo bancário e fiscal de tesoureiro tucano
O atual tesoureiro do PSDB gaúcho e ex-secretário geral do governo Yeda Crusius, Delson Martini (na foto com a governadora), estava sendo investigado pelo Ministério Público e teve seus sigilos bancário, fiscal e financeiro quebrados. Em janeiro de 2008, Martini foi nomeado secretário por Yeda e investigação teve que ser suspensa, pois ele passou a desfrutar de foro privilegiado.

por Marco Aurélio Weissheimer - Agência Carta Maior
PORTO ALEGRE
- O ex-secretário geral do governo Yeda Crusius (PSDB) e atual tesoureiro do PSDB gaúcho, Delson Martini, foi investigado pela Operação Rodin, em 2007, e chegou a ter quebrados seus sigilos bancário, fiscal e financeiro, por solicitação do Ministério Público Federal. A investigação foi suspensa, em janeiro de 2008, quando Martini foi nomeado secretário pela governadora Yeda Crusius (PSDB) e passou a desfrutar da condição de "foro privilegiado". Martini foi citado em várias conversas entre acusados de integrar a quadrilha que roubou o Detran como alguém que seria responsável pela resolução de "problemas" envolvendo empresas terceirizadas também acusadas de envolvimento na fraude. Em depoimento à CPI do Detran, nesta segunda-feira, o atual tesoureiro tucano negou qualquer envolvimento na fraude e disse que não poderia "interpretar" as menções ao seu nome pelos acusados de integrar a quadrilha.Além disso, negou ter participado da campanha de Yeda Crusius, em 2006, exceto por algumas participações "como militante" em jantares e atos públicos. Apesar de sua participação supostamente modesta na campanha, Martini foi nomeado tesoureiro estadual do PSDB, presidente da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) e secretário-geral de governo. Seu nome foi apontado, em mais de uma conversa, como alguém capaz de "resolver o problema com Lair Ferst" no episódio da troca de contrato do Detran com as fundações de Santa Maria, que provocou o afastamento das empresas do lobista tucano. Após a Operação Rodin, Martini também recebeu dois e-mails do ex-presidente do Detran, Flavio Vaz Netto, cobrando uma audiência para tratar de "assuntos de governo". Vaz Netto disse que não deu qualquer encaminhamento a essas mensagens.Em depoimento à Polícia Federal, Vaz Netto disse que Martini sabia das pressões que Lair Ferst estava fazendo sobre o governo, depois que suas empresas foram afastadas dos negócios com o Detran. O ex-secretário repetiu a fórmula de que não lhe cabia "interpretar" as palavras de Vaz Netto e que não havia sido chamado pela Polícia Federal, Ministério Público Federal ou Justiça Federal para falar sobre a fraude no Detran. Foi pego pela palavra. Indagado pelo deputado Fabiano Pereira (PT) se não havia prestado qualquer depoimento sobre o caso, o tesoureiro tucano repetiu a resposta, o que acabou sendo um passo em falso. O presidente da CPI revelou que Martini foi chamado a depor pela Procuradoria Geral do Estado (PGE), no dia 17 de janeiro deste ano, na sindicância interna realizada no governo para apurar as fraudes no órgão. Movimentos denunciam "estado de exceção" no RS"O Rio Grande do Sul vive um Estado de Exceção. Toda e qualquer manifestação social é reprimida com violência pela Brigada Militar sob ordens da Governadora Yeda Crusius. São freqüentes os episódios de trabalhadores e trabalhadoras algemados, feridos com balas de borracha e atingidos por bombas de gás lacrimogêneo e pimenta. Professores, metalúrgicos, sem terras, desempregados... A violência do Estado contra os pobres é cotidiana nas abordagens da polícia para os trabalhadores, sejam nos bairros, sejam nos movimentos sociais". Essa é a avaliação de um conjunto de movimentos sociais e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em nota oficial divulgada nesta segunda-feira (16) sobre os rumos do governo tucano no RS. O objetivo da violência, dizem os movimento, é impedir as denúncias contra a corrupção no governo Yeda."Os episódios do dia 11 de junho", diz a nota, "são apenas a página mais recente desta história". "Movimentos sociais que protestavam contra a alta do preço dos alimentos, antes de um ato contra a corrupção, foram cercados e feridos pela Brigada Militar. O objetivo da polícia era evidente: impedir que os movimentos sociais denunciassem a corrupção que sustenta o governo Yeda". Essa corrupção, prossegue o texto, "não se dá apenas no desvio de recursos de órgãos públicos, como os R$ 44 milhões desviados do Detran". "A corrupção também é institucionalizada e formalizada nos financiamentos de campanha. A Governadora foi financiada por grandes grupos financeiros e por empresas transnacionais. Apenas três empresas de celulose - Stora Enso, Aracruz Celulose e Votorantim - doaram meio milhão de Reais para a campanha de Yeda".O agradecimento às doações é pago em políticas da governadora, denunciam os movimentos sociais: "desregulamentação ambiental para beneficiar a compra de áreas por papeleiras, fechamento de salas de aulas e turmas de Educação de Jovens e Adultos, privatização do Banrisul, concessões fiscais aos financiadores da sua campanha". "Para o movimento social organizado, violência e repressão. Repressão que não é apenas um método, mas é parte desta política, gestada pelos mesmos setores que ordenaram o Massacre de Eldorado de Carajás no Pará e o massacre de Felisburgo em Minas Gerais". Os movimentos sociais prometem reagir e seguir "lutando não apenas para que todos os casos de corrupção sejam apurados, mas para que tenhamos uma verdadeira reforma política, que impeça que grupos transnacionais governem através do financiamento de campanha". "Nosso compromisso é com a construção de um projeto popular para o Brasil que garanta educação, saúde, terra e trabalho para todos e com dignidade", conclui a nota assinada pelas seguintes organizações: Comissão Pastoral da Terra (CPT), Federação dos Trabalhadores da Indústria da Alimentação do Rio Grande do Sul, Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos do Rio Grande do Sul, Levante Popular da Juventude, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), Pastoral da Juventude Rural (PJR)e Resistência Popular.A "força-tarefa" para salvar YedaNo final de semana, o jornal Folha de São Paulo anunciou que a direção nacional do PSDB decidiu constituir uma "força-tarefa" para "salvar" o governo de Yeda Crusius. Coincidência ou não, no mesmo dia a revista Veja publicou uma matéria onde a governadora denuncia a existência de uma suposta "conspiração" contra seu governo e sugere que o ministro da Justiça, Tarso Genro e a Polícia Federal estariam envolvidos na mesma. Nesta segunda-feira, o PSDB gaúcho promoveu um ato público em frente ao Palácio Piratini em defesa da governadora. Diversos ônibus vieram do interior do Estado conseguindo reunir cerca de 400 pessoas para prestar apoio a Yeda. Tradicionais críticos da presença de crianças em atos de movimentos sociais, os tucanos gaúchos pediram socorro a todas as idades para garantir o ato no palácio.