03 dezembro 2007


PRECONCEITO EXPLÍCITO
Estréia nesta edição do DR um novo colunista: Nelson Franco Jobim. Não confundir com o Ministro da Defesa. O nosso é franco, o ministro não se sabe. Nelson é um experiente jornalista com passagem pelas redações da TV Globo, onde foi editor internacional do Jornal da Globo e, mais tarde, correspondente do Jornal do Brasil em Londres. Nelson é professor de jornalismo e relações internacionais em uma universidade do Rio de Janeiro. Um belo curriculum, sem dúvida. Em sua coluna de estréia, ele comenta os resultados da Conferência Internacional para a Paz, da última terça-feira, em Maryland, EUA. Esse é também o tema do colunista José Inácio Werneck, sediado em Connecticut. A coincidência se explica pela liberdade que têm os colunistas do DR na escolha do tema. Não há pauta pré-estabelecida, nem tema preferencial ou proibido. Vale a pena ler e comparar as opiniões de Nelson e Werneck sobre esse novo esforço pela paz no Oriente Médio. Por falar em esforço, quem não precisa fazer nenhum para colocar para fora o preconceito explícito contra a massa de brasileiros excluídos socialmente é o ex-presidente Fernando Henrique. No encerramento da convenção do PSDB, semana passada, o ex-presidente Fernando Henrique foi, no mínimo, deselegante, ao afirmar, em discurso inflamado, que “precisamos de brasileiros melhor educados, e não liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria”. Quem lê tal declaração logo imagina estar diante de um político de oposição que planeja ocupar a presidência e promover uma revolução no ensino do país. Mas será que FHC pensa que o povo é tão ingênuo que já esqueceu seus dois mandatos à frente do Executivo? Ora, se ele diz que “precisamos de brasileiros melhor educados”, certamente esses milhões de “deseducados” não surgiram no governo Lula. Vêm de longe, e passaram olimpicamente pelos oito anos de FHC, sem que nada fosse feito para minorar o problema. O ex-presidente foi cruel e, embora não aceite a pecha, extremamente elitista. Um tiro pela culatra, porque o preconceito contra os excluídos não atinge apenas Lula, mas os milhões de brasileiros que não têm acesso aos bancos escolares.Nos Estados Unidos, os ex-presidentes se respeitam e são respeitados pelo público, independente do partido a que pertençam. Se encontram e até estrelam campanhas sociais juntos, como fizeram recentemente Bush (pai) e Bill Clinton, que apareciam juntos na TV pedindo ajuda para países menos desenvolvidos. Mais recentemente, na inauguração da biblioteca do democrata Clinton, em Little Rock, estava lá o próprio presidente Bush, republicano. Tudo numa boa, sem ofensas ou ataques pessoais.É isso que se espera de um ex-presidente da república: discrição e dignidade, qualidades inerentes a alguém que foi um magistrado por força do cargo que ocupou. No caso de FHC, isso se torna superlativo por sua conhecida formação cultural e acadêmica. Dele deveriam partir os melhores exemplos. Foi de uma professora paulista, Thais Nicoleti, a melhor lição que FHC poderia tirar do episódio: Não se pode usar a fragilidade da educação formal de uma pessoa para atacá-la. Como professora de português, nunca desmereço o discurso de alguém por sua forma de falar. Isso é politicamente incorreto ou no mínimo mesquinho.(FSP, 25.11)