03 setembro 2007


Desculpe, me equivoquei sobre os militares de hoje
"Agora você vai conhecer a sucursal do inferno." (Capitão Maurício Lopes de Lima, durante uma sessão de tortura de frei Tito de Alencar - frase citada no programa "Linha direta", TV Globo, de 16 de novembro de 2006)

Desculpe, mas sou forçado a deixar o dito pelo não dito. Não é do meu costume, mas isso acontece nas melhores colunas. A gente pensa que algo mudou, mas na hora da onça beber água pode acontecer uma surpresa desagradável. Bem que eu quis trabalhar com a melhor de nossas impressões históricas.
Efetivamente, o que aconteceu, aconteceu. Isso ninguém pode negar. Mas parece que sobrevive o pensamento castrense mais soturno. Eu que me iludi. O general Estilac Leal e o marechal Lott se afiguram, a meus olhos, agora, acidentes de percursos. O vírus permanece no DNA da intolerância. É uma pena. Mas sou forçado a concordar com a lúcida avaliação do jornalista Kennedy Alencar, da "Folha de S. Paulo".
Ele, que não passou pelo que passou minha geração, escreveu com todas as letras: "A nota do alto comando do Exército sobre o livro "Direito à memória e à verdade" é uma triste notícia para o País. Divulgada na sexta-feira (31/08), a nota mostra que continuam firmes e fortes nas Forças Armadas a mentalidade golpista, certa resistência ao poder civil e uma dose de indisciplina incompatível com a vida militar".
Será que os generais de hoje aprovam o que fizeram seus colegas de ontem? Então, se isso é verdade, como se infere do documento do chefe do Exército, estamos todos expostos a novos safanões. Cuidado: sua palavra poderá estar sendo arquivada para futuras vinditas. Como as que sofri.
Verdade. Quando estava sendo torturado na Casa 9 da Ilha das Flores, o torturador Solimar mostrou um recorte do jornal "O Semanário", no qual eu, poeticamente, repetia Danton: - É preciso ter três virtudes, audácia, audácia e audácia. Eu tinha que repetir aquilo, e a cada palavra, um avalanche de pescoções. Os torturadores se divertiam, davam gargalhadas e me ameaçavam do pior. Nós éramos torturados inteiramente nus, sempre ouvindo uma piadinha sobre a possibilidade de um estupro.
Pior sofreram os outros
Você dirá que estou escrevendo com o coração cheio de mágoas pelo que passei. Nem pensar. Fui torturado nas instalações do Batalhão Humaitá de 2 a 19 de julho de 1969. Entre uma sessão de cachações, choques elétricos, "telefones" e outras, ficava incomunicável ou na "cela vermelha", sob uma guarita fria, ou num banheiro fétido, na entrada do presídio improvisado.
Sofri muito, é verdade. Mas outros prisioneiros sofreram muito mais. Eu ainda fui do tempo que o torturador mostrava a cara. Era uma tortura olho no olho. Logo depois, veio a tortura com capuz. A violência ficou mais dolorosa, mais medonha, mais imoral. Alguns não resistiram. Morreram no pau-de-arara. Os médicos que davam injeção para reanimar nem sempre chegaram a tempo. Outros, até hoje conservam seqüelas. Mesmo em liberdade, viviam assustados. O suicídio do frei Tito de Alencar, na França, foi uma morte retardada.
São essas práticas que o comandante do Exército quer fazer esquecer? É esse o sentimento que você abraça? Vou contar mais uma história pessoal, que, aliás, não está no meu livro "Confissões de um inconformista". Sou de uma família tradicional do Ceará. E em toda família tradicional, havia sempre um padre - meu tio foi o monsenhor Catão, que vivia brigando por terras com meu pai, fazendeiro - e um militar.
Um primo-irmão chegou a coronel do Exército, servindo no Paraná. Apoiou o golpe de 64 como a salvação da lavoura contra a "ameaça da ditadura comunista". Seu filho mais velho era bancário e fazia parte do sindicato. Um dia ele se defrontou com o arbítrio em sua própria casa. O rapaz estava sendo torturado apenas por ser sindicalista. O pai indignou-se, pediu baixa e passou à reserva como general.
Conversei com ele logo depois do golpe. Vinha do Ceará com a carta do meu irmão mais velho, e quis me tranqüilizar: - Pode deixar, só derrubamos o presidente para evitar que o Brasil caísse numa ditadura comunista.
E foi isso que aconteceu? O general Moisés Porfírio morreu triste, pensando que sabia onde pisava, quando estava entre os comandantes da V Região Militar que apoiaram a "revolução redentora".
Era para pedir desculpas
Pincemos outros trechos da matéria do jornalista Kennedy de Alencar: "A reação do alto comando deveria ter sido de vergonha. Uma autocrítica e um pedido de desculpas soariam muito bem. Instituições como a Igreja Católica já agiram assim a respeito do que consideraram erros e abusos do seu passado. Mas qual foi a reação dos nossos militares, em pleno século 21?
"Não há exércitos distintos. Ao longo da história, temos sido o mesmo Exército de Caxias, referência em termos de ética e de moral, alinhado com os legítimos anseios da sociedade brasileira", diz a nota do alto comando, que se reuniu extraordinariamente para discutir o livro. Lamentável constatar que os atuais generais consideram integrar o mesmo Exército daqueles que executaram presos que já não podiam reagir. Torturaram intensamente militantes de esquerda. Abusaram sexualmente de homens e mulheres.
Estupraram. Decapitaram. Esquartejaram. Ocultaram cadáveres. Enganaram famílias, exigindo dinheiro em troca de informações que se comprovaram falsas.
Deram versões falsas ao público".
"Mas há coisa pior: a nota afirma que a Lei de Anistia, de 1979, `produziu a indispensável concórdia de toda a sociedade, até porque os fatos históricos têm diferentes interpretações, dependendo da ótica de seus protagonistas'. "A repressão política agiu com consentimento dos mais altos dirigentes da ditadura, inclusive de generais-presidentes. O livro relativizou a tese de que a Lei da Anistia de 1979 se estendeu a todos os crimes cometidos pelos militares. Cortes internacionais afirmam claramente: são imprescritíveis os crimes contra os direitos humanos. Portanto, há, sim, controvérsia a respeito da Lei da Anistia".
Depois dessa, ninguém vai me convencer que o comandante do Exército só fez tais declarações por causa do ministro Jobim. Fizeram, sim, porque o governo é fraco e só deu ênfase ao livro para mudar o foco da discussão, em face do sufoco do aliado Renan Calheiros.
Diante disso, cada um que me cuide. É ilusão pensar que aquilo tudo que sofremos são COISAS DO PASSADO.
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