Ricardo Stuckert/Agência Brasil
Patinho feio dos Brics, em eterna desvantagem nas comparações econômicas com a China, o Brasil surpreendeu e subiu ao topo do pódio no campeonato de atração de investimento direto entrangeiro. Em junho, entraram US$ 10,3 bilhões aqui e "apenas" US$ 6,6 bilhões no gigante do Oriente.
Mas trata-se de uma arrancada pontual, em um mês atípico. No acumulado do primeiro semestre, a China recebeu quase US$ 32 bilhões em investimento externo, cerca de 35% a mais que o Brasil. "O resultado de junho é um ponto fora da curva, é uma fotografia do momento. Para comparar, é preciso analisar o histórico, e os chineses ganham na regularidade", observa Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, agência classificadora de risco de crédito.
O resultado excepcional de junho - equivalente à soma dos cinco meses anteriores - se deve, em grande parte, a operações que envolvem apenas três empresas. A compra de ações da Arcelor pela siderúrgica Mittal respondeu sozinha pelo ingresso de cerca de US$ 5 bilhões, por exemplo.
Nos primeiros seis meses do ano, a entrada de investimentos estrangeiros já superou US$ 20 bilhões - a previsão oficial para os doze meses de 2007 ainda é de US$ 25 bilhões, mas com certeza o número será revisto.
Leia a seguir entrevista de Alex Agostini:
Terra Magazine - O que explica esse salto na entrada de investimentos diretos em junho? Alex Agostini - Esse ingresso de mais de R$ 10 bilhões em investimento estrangeiro direto foi por conta de fusões e aquisições, ou seja, empresas de fora que assumiram o capital e a administração de outras empresas aqui dentro e trouxeram os recursos. Isso inclui também conversões de empréstimos em investimentos. Quando uma empresa toma um empréstimo na matriz, lá fora, para alguma expansão aqui dentro, ela tem de devolver o dinheiro, mas a matriz pode abrir mão dessa dívida, transformando-a em investimento. Houve também US$ 4,8 bilhões em investimentos em carteira, ou seja, ações e títulos do governo. É um crescimento muito forte em relação ao ano passado, porque os juros estão muito elevados aqui no Brasil e também porque todos os emergentes estão dando bons resultados para os investidores. Houve um ajuste significativo na solvência externa do país, ou seja, temos hoje uma situação de pagamento em moeda estrangeira muito melhor do que no passado. Basta olhar o crescimento forte das reservas, que superam os US$ 150 bilhões. Alem disso, as exportações continuam muito firmes. Isso tudo dá segurança para os investidores estrangeiros.
Mesmo preocupado com a valorização do real, o governo tem hesitado em adotar medidas para restringir investimentos de curto prazo... O investimento de curto prazo, que pode sair a qualquer hora, é saudável, é bom, ao contrário do que se dizia anos atrás. A empresa que tem suas ações valorizadas transforma isso em investimento, ou por abatimento de dívida ou por expansão da produção e contratação de pessoal. O governo não deve adotar medidas heterodoxas. Se o capital quer vir, tem de deixar entrar. O que poderia fazer é uma seleção de capitais, privilegiando, por exemplo, o que fica mais de 360 dias, com um escalonamento de imposto. Se ficar mais tempo, paga taxa menor.
A entrada de investimentos voltará ao nível da época das privatizações, quando superava os US$ 30 bilhões por ano? Neste ano é difícil que isso aconteça. Em 2000, no pico das privatizações, foram US$ 32,8 bilhões. Em 2001, o melhor resultado dos últimos anos, foram US$ 22,5 bilhões. Estamos num caminho de recuperação sólida. Em 2005 foram US$ 15,1 bilhões, em 2006, US$ 18,8 bilhões, e para esse ano há previsões de US$ 25 bilhões a US$ 28 bilhões. Ainda que estejamos recebendo menos capital que na época das privatizações, hoje temos uma base bem mais sólida. Naquela época não tínhamos um cenário de solvência externa tão positivo. Lá o dinheiro entrava por venda de ativos do governo, o que era necessário, porque o governo não tinha dinheiro para investir. Hoje não é o país que está vendendo seus ativos, é o investidor que viu o Brasil com bons olhos e está vindo para cá. Ou seja, a confiança aumentou.
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