20 julho 2007

ALGUÉM MATA OS MORTOS!
(com profunda dedicação à Mídia brasileira)

Não basta o lamento, a dor, a lágrima!
O que é o grito aflito?
O que dói a dor da mãe da criança que morreu?
O que dói a dor do filho do pai que já morreu?

O que dói, que não dói em meu
Eu?

Ah! Meu trágico Eu!

Meu Eu dos benefícios!
Meu Eu dos negócios,
política,
e sucesso por ofício!

A dor que dói a tragédia
é pouca!
É mouca ao meu grande alarido!

Então não sabem os mortos
de minha eternidade?
Não assistiram a história!

Se não viram, se não ouviram,
se creram, em vida,
nos pátrios hinos,
nas humanas éticas,

Minhas mãos erráticas,
alugadas ao papel,
que a qualquer latrina se doam,
e chafurdam em todos os putrefatos,
sem pejo há de lhes arrancar a angústia
e dar a voz!

Pois aprisionei Eco,
onde pétreo Narciso
se mira,
apaixonado em seu mínimo Eu.

Eu de mim!

E de mim,
o que sabem os mortos?

Ah! O que sabem os mortos
de suas tragédias?

Eu Medeia,
sei e conto-lhes a história.
E esparso meus queridos mortos,
absorvendo-os pedaço a pedaço .

Sei de meus queridos mortos,
muito acima de suas verdades.

E o que são verdades
senão o lapso de
heróis falhos?
De falhos filhos
da tragédia.

O que é o frangalho da tragédia
perante Medeia:
a Trágica!

Mortos, oh meus queridos
e tão providenciais mortos!

Sou-lhes a palavra!

Pouco, ou nada já lhes importa
a palavra
que não dizem.

Loucos mortos!
Irônicos mortos!
Me rio!

- Mas aí vem Teseu!
Caluda!

Sou a palavra!

- Caluda!
Que dos meus filhos,
o único amado,
tem por nome:

Medo!


Raul Longo

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