ALGUÉM MATA OS MORTOS!
(com profunda dedicação à Mídia brasileira)
Não basta o lamento, a dor, a lágrima!
O que é o grito aflito?
O que dói a dor da mãe da criança que morreu?
O que dói a dor do filho do pai que já morreu?
O que dói, que não dói em meu
Eu?
Ah! Meu trágico Eu!
Meu Eu dos benefícios!
Meu Eu dos negócios,
política,
e sucesso por ofício!
A dor que dói a tragédia
é pouca!
É mouca ao meu grande alarido!
Então não sabem os mortos
de minha eternidade?
Não assistiram a história!
Se não viram, se não ouviram,
se creram, em vida,
nos pátrios hinos,
nas humanas éticas,
Minhas mãos erráticas,
alugadas ao papel,
que a qualquer latrina se doam,
e chafurdam em todos os putrefatos,
sem pejo há de lhes arrancar a angústia
e dar a voz!
Pois aprisionei Eco,
onde pétreo Narciso
se mira,
apaixonado em seu mínimo Eu.
Eu de mim!
E de mim,
o que sabem os mortos?
Ah! O que sabem os mortos
de suas tragédias?
Eu Medeia,
sei e conto-lhes a história.
E esparso meus queridos mortos,
absorvendo-os pedaço a pedaço .
Sei de meus queridos mortos,
muito acima de suas verdades.
E o que são verdades
senão o lapso de
heróis falhos?
De falhos filhos
da tragédia.
O que é o frangalho da tragédia
perante Medeia:
a Trágica!
Mortos, oh meus queridos
e tão providenciais mortos!
Sou-lhes a palavra!
Pouco, ou nada já lhes importa
a palavra
que não dizem.
Loucos mortos!
Irônicos mortos!
Me rio!
- Mas aí vem Teseu!
Caluda!
Sou a palavra!
- Caluda!
Que dos meus filhos,
o único amado,
tem por nome:
Medo!
Raul Longo
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