05 junho 2007


O filho de dois tracinhos

Sebastião Nery

Vinha voltando devagar da Rússia e do Leste Europeu, pela Finlândia, Suécia, Noruega, em julho de 96, passei em Portugal para a posse de Jorge Bornhausen na embaixada do Brasil. Lá, por acaso, vi, de longe, o pequeno e simpático Tomás, filho do presidente Fernando Henrique e da jornalista Myriam Dutra, da TV Globo. A cara do pai. Toda a embaixada e os jornalistas brasileiros que trabalhavam em Lisboa o conheciam. Esqueci. Algum tempo depois, vi na capa da “Isto É” fotos de João Goulart, Pelé, Roberto Carlos, Collor, Romário, outros, em uma matéria sobre “os filhos de gente importante fora do casamento”. E o Tomás não estava lá. Era uma discriminação. Presidente da República é “gente importante”. Escrevi uma coluna contando a história do menino e perguntando por que a revista, que falava de tantos outros, escondia exatamente o que era mais notícia. A “Tribuna da Imprensa” deu manchete. O “Diário de Notícias” de Lisboa transcreveu lá. E o PDT pôs na Internet. Era a primeira vez que se contava em jornal uma história que todo mundo sabia. Foi um terremoto. Amigos meus ligados a Fernando Henrique e líderes do governo cercaram-me de todos os lados para que eu exigisse do PDT que tirasse minha matéria da Internet. Não fiz. Publicada, era pública. Em dezembro dei longa entrevista (seis páginas) sobre política nacional e internacional ao excelente semanário “Jornal Opção”, de Goiânia, que pôs na manchete: “Jornalista revela história secreta do filho do presidente Fernando Henrique com a jornalista Myriam Dutra, da TV Globo”.
A ótima revista “Caros Amigos” pegou minha coluna na “Tribuna de Imprensa” e a entrevista no “Jornal Opção” e resolveu fazer uma reportagem completa, que afinal está nas bancas com enorme sucesso:
Por que a Imprensa esconde o filho de 8 anos de FHC com jornalista da Globo?”

Não há gabinete de Brasília, no Congresso, Judiciário e Executivo que não tenha a revista. Seis densas páginas, ótimo texto e a história integralmente contada, inclusive com declarações de Myriam. E o documento devastador: o registro só com o nome da mãe. No lugar do nome do pai, dois tracinhos. A “Caros Amigos” perguntou às televisões, revistas e jornalões por que não publicaram um fato que todos conhecem, já que publicaram sobre os outros. Deram respostas esfarrapadas, algumas calhordas. A mais comum é que Tomás foi registrado por outro pai (um biólogo inglês). É mentira. São dois tracinhos. A outra desculpa é que o assunto é privado. E os filhos fora do casamento dos outros, políticos ou não, também não são um assunto privado?
Pena que a indispensável “Caros Amigos” tenha cometido o mesmo pecado aético que cobra dos outros: escondeu os nomes da “Tribuna da Imprensa” e do “Jornal Opção”, para parecer dona de uma história já contada.

(Transcrito do Diário Popular – hoje Diário de S. Paulo -, 16 de abril de 2000)