16 janeiro 2007

Consórcio premiou economia de material
MARIO CESAR CARVALHODA REPORTAGEM LOCAL
O Consórcio Via Amarela, que constrói a estação de metrô que ruiu em São Paulo, pagava prêmios para as empresas de projetos de engenharia que conseguissem reduzir o uso de materiais, como concreto, cimento ou vergalhões de ferro.A informação é de dois engenheiros que participaram do projeto da Via Amarela e não querem ver seus nomes divulgados por acreditarem que sofreriam retaliações.O consórcio que faz a Via Amarela é integrado pelas empresas CBPO Engenharia, Queiroz Galvão, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez. A CBPO, uma subsidiária da Odebrecht, lidera o consórcio.O assunto é tão tabu que o Instituto de Engenharia de São Paulo e o Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva não quiseram comentar a questão.Pagamento de prêmios é uma prática usual em contratos do tipo "turn key" (vire a chave, em tradução literal, ou chave nas mãos, numa versão livre)."Turn key" é uma espécie de terceirização total -a empresa ou consórcio contratado devem entregar a obra com tudo pronto, tem o poder de subcontratar quem bem entender e é responsável, inclusive, pela fiscalização.Segundo a política de prêmios adotada pelas empreiteiras, se o projeto de uma estação resultasse na economia de R$ 5 milhões em concreto, a empresa que o criou podia ganhar R$ 500 mil a mais, num exemplo hipotético.OscilaçõesAs normas técnicas tinham de ser respeitadas nos projetos. O problema é que o grau de redundância, decisivo para a segurança de obras públicas, podia sofrer oscilações, de acordo com os dois engenheiros.Essas pequenas oscilações dentro da norma técnica podem resultar em uma grande economia para as empreiteiras.Um professor de engenharia civil da Politécnica da USP, que também não quer ver seu nome publicado, disse que em certas obras essa prática pode ser absurda. Empresas de projetos, segundo ele, têm de ser contratadas como se fossem um cardiologista -o preço não é o fator mais importante, mas sim o nível de especialização.Num paralelo irônico, ele comenta que o prêmio para a economia de concreto seria como pedir ao cardiologista para colocar não três pontes de safena num paciente que sofreu infarto, mas duas.