05 novembro 2006


O pouco prestígio do chuchu

Sábado, 4 de novembro de 2006, 07h36
Lecticia Cavalcanti
Não houve, naquele tempo, povo mais civilizado deste lado do mundo. Os Astecas apreciavam livros - escritos em "nauatle", uma mistura de ideogramas com escrita fonética. Construíam aquedutos, diques e estradas. Tinham organização militar bem desenvolvida. Dominavam técnicas avançadas de astronomia, metalurgia (sabiam trabalhar ouro, prata e cobre) e, sobretudo agricultura e irrigação - usando meios bem mais modernos que os estão empregados na Europa. Eram mestres no cultivo de abóbora, algodão, batata, cacau, feijão, milho, pimentão, tomate. E também de chuchu.
O nome vem do quíchua - "chufehuf". Os franceses, quando chegaram às Antilhas, o passaram a chamar de "chou-chou" - daí vindo o nome, em português. Só que chuchu para essa gente, por ter gosto suave e ser de fácil digestão, era mais alimento de doentes e convalescentes.
Depois, em 1519, o espanhol Hernan Cortés chegou àquelas terras e destruiu o grande império asteca. Como depois Pizarro entrou em Cuzco e destruiu a quase tão grande civilização Inca. Sobrou pouco deles. Para Espanha levaram ouro, pedras preciosas e mudas daqueles alimentos - dos quais os de maior prestígio foram a batata e o cacau, usado para fabricação do chocolate. Chuchu também. Chegou ao Brasil com os primeiros navegadores portugueses. Foi ganhando fama e acabou candidato a Presidente da República. Perdeu. Ninguém é perfeito. Nem o próprio chuchu.
Diferente do que geralmente se imagina, chuchu (Sechium edule) não é tubérculo. Mas fruto de uma trepadeira, da mesma família (Cucurbitácea) do melão e da melancia. A cor varia, do branco ao verde escuro. Podem ser arredondados ou em forma de pêra. Com casca lisa ou espinhosa, dependendo da espécie. Frágeis, duram no máximo 5 dias depois de colhidos. Na geladeira até 8, se embalados em saco plástico.
Chuchu normalmente é servido cozido - em saladas, refogados, suflês, pudins e gratinados. Fritos ou empanados - acompanhando carne, galinha ou peixe. Por ser diurético, é usado como remédio para baixar a pressão. E, rico em fibras, acabou sendo eficiente regulador de intestino. Faltando só dizer que esse chuchu é também sinônimo de coisa sem graça. Sem sabor.
"Pra chuchu" significa ainda em grande quantidade - por força do excesso de safra do chuchuzeiro - que, quando começa a frutificar, não para mais. Chuchu, na gíria carioca, é também "mulher bonita, atraente, sedutora". Por conta de Chouchou - uma francesa dona da pensão Imperial, no bairro da Lapa no Rio de Janeiro. O novo significado se espalhou pelo Brasil todo. Por essa os astecas não esperavam. Recentemente provei salada incrivelmente saborosa com chuchu cru, no Restaurante Celeiro, no Rio de Janeiro. O gosto é mesmo surpreendente. Lembra melão. Vale conferir na receita de hoje.
RECEITA
Salada de Chuchu
Ingredientes: - 1 ½ kg de chuchu cru descascado, cortado em juliana (tiras bem finas);- 1 colher de sopa de sal;- 1 colher de sopa de pimenta rosa.
Para o molho:- 6 colheres de sopa de maionese;- 6 colheres de sopa de iogurte natural;- ½ colher de sopa de açúcar;- 2 colheres de sopa de suco de limão.
Preparo: - Misture o chuchu com o sal e deixe em uma peneira, para que saia toda a água;- Prepare o molho: junte maionese, iogurte, açúcar, limão e misture bem;- Na hora de servir, junte o chuchu ao molho e misture bem. Decore com grãos de pimenta rosa. Sirva imediatamente.
Lectícia Cavalcanti coordena o caderno Sabores da Folha de Pernambuco, escreve na Revista Continente Multicultural e no site pe.360graus.
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