04/10/2006 - 16:54 Artigo: Dossiê Bombril, por Milton Pomar
Dossiê Bombril
Dossiê Bombril
Por Milton Pomar
As mil e uma utilidades do famoso dossiê reforçam cada vez mais a desconfiança de sua origem real, a partir da constatação escandalosa de quem dele se beneficiou. Afinal, se a origem dos reais e dólares é importante descobrir, tão importante quanto tornou-se saber quem realmente arquitetou essa ação, que resultou na mais importante da campanha presidencial para os adversários do PT. Há aspectos estranhos em toda a estória, e algumas personagens conhecidas de outros episódios cuja participação ainda não foi esclarecida.Aspectos intrigantes (e como!) e resultados visíveis à parte, é inegável que o tal dossiê que não aconteceu serviu e muito para que um candidato anódino conquistasse uma parcela do eleitorado às custas dele, sem precisar dizer a que veio e o que fez e deixou de fazer nos últimos 12 anos, em sua passagem pelo Estado mais rico do País, a começar pela privatização do Banespa.Sua campanha nos últimos 15 dias resumiu-se a falar o tempo todo desse assunto, escancarando para quem quis ver que ele não tem outro assunto para falar. Ele e a imprensa, como se a pauta de todos os veículos fosse combinada. Ao falar obsessivamente do dinheiro que supostamente seria utilizado para comprar o tal dossiê, deixou de falar do conteúdo do mesmo.A notável imprensa deixou de perguntar ao candidato o óbvio: políticos do primeiro escalão do PSDB estão ou não envolvidos na compra superfaturada de ambulâncias pelo ministério da Saúde na gestão FHC/Serra/Barjas Negri?Enquanto repetia seguidas vezes o seu mantra diário da origem do dinheiro, deixava de responder às perguntas que a imprensa deixou de fazer, a respeito do estágio atual de caos da segurança pública e das penitenciárias em São Paulo, sob sua responsabilidade direta.Nada como um dossiê anunciado e não utilizado, no melhor estilo viúva Porcina, para livrar um candidato anódino de debater as grandes questões nacionais, como as privatizações escandalosas da Vale do Rio Doce e da Telebrás. Como assumir, perante a Nação, que será mera continuidade do governo FHC, já mirando na venda da Petrobrás, BB, CEF e Eletrobrás?Melhor tratar unicamente sobre o "escândalo" do R$ 1,7 milhão, do que responder à pergunta não feita sobre o R$ 1.915.000,00 apreendidos pela Polícia Federal na casa do assessor (que está preso) do secretário da Fazenda do governador de Santa Catarina, seu aliado e candidato à reeleição pelo PMDB/PSDB/PFL.Um dossiê não divulgado não constitui crime algum, ao contrário do empréstimo de US$ 50 bilhões contratado pelo Brasil para cobrir o déficit causado pela política cambial de FHC no segundo semestre de 1998, quando manteve artificialmente o valor do real frente ao dólar para não correr o risco de perder as eleições. Mas o dossiê serve também para que mais esse escândalo do governo do PSDB/PFL seja esquecido pela imprensa.O dossiê mil e uma utilidades serve como uma luva ao candidato anódino e sem respostas para a questão do crescimento econômico. Como responder às perguntas não-feitas sobre o crescimento medíocre da economia brasileira durante os oito anos do governo FHC, do PSDB/PFL, quando o País menos cresceu, menos gerou empregos e mais perdas causou na renda da população (os servidores públicos federais que o digam)? Mas por que explicar o inexplicável, se há reais e dólares dos quais se pode falar, e falar, e falar...?O que seria da campanha presidencial do PSDB/PFL se não fosse essa providencial estória do dossiê, capaz de livrá-la do mal de ter que comparar três anos e meio de governo Lula com oito anos de governo FHC?Falar o tempo todo dos R$ 1,7 milhão também livra o candidato anódino de falar da inacreditável eleição "de virada" do candidato do PSDB ao governo de Minas Gerais, em 1998, do seu "megacaixadois" e de uma criativa metodologia a eles relacionada.Ainda que a imprensa não cobre, o melhor é não tocar no assunto da origem dos muitos esquemas de corrupção, "métodos" de financiamento de campanha e quetais, dos anos 90, descobertos pela Polícia Federal durante o governo Lula. Há um dossiê que seria comprado, e essa é a questão mais importante do País.Como não há mal que nunca se acabe, nem bem que sempre dure, o dossiê terá agora a utilidade preciosa de permitir o esclarecimento ao povo brasileiro a respeito das diferenças mais importantes das duas candidaturas à Presidência, comparar o que fizeram e farão o PT e seus aliados e PSDB/PFL e seus aliados. Escancarar os oito anos de governo FHC e 12 anos em São Paulo, versus os três anos e meio do governo Lula fará um bem enorme ao eleitorado brasileiro.Por mais paradoxal que possa parecer, essa oportunidade de comparação servirá até para a classe média se dar conta que também para ela o governo Lula continuará sendo melhor, porque é o governo que diminuiu e vai diminuir ainda mais a miséria do povo brasileiro, agravada pelos governos do PSDB/PFL. E um país mais justo economicamente faz bem para toda a população, não apenas para a parcela pobre.Esse é um aspecto fundamental na comparação. Se apenas repressão policial e mais prisões fossem suficientes, São Paulo não estaria o caos nesse aspecto. A distribuição de renda, o desenvolvimento social e econômico, são decisivos para melhorar a segurança pública nas grandes cidades. A economia crescer, como prega o PSDB/PFL, não é suficiente em um país como o Brasil, onde a concentração de renda é uma das maiores do mundo. Tem que crescer, mas tem que distribuir ao mesmo tempo. Ou em outras palavras: tem que distribuir para crescer. E isso não é com o PSDB e o PFL...
Milton Pomar é jornalista e militante do PT-SC