Valor Econômico
Ciclo de crescimento é o mais longo dos últimos 19 anos
Sergio Lamucci
Ciclo de crescimento é o mais longo dos últimos 19 anos
Sergio Lamucci
30/08/2006
O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre a ser divulgado amanhã deverá mostrar mais um avanço da atividade econômica, elevando a duração do atual ciclo de expansão para 12 trimestres, a mais longa em 19 anos. Iniciado na segunda metade de 2003, o ciclo se caracteriza, para alguns analistas, por uma trajetória mais sustentável, marcada por mais crescimento, menos inflação e maior geração de empregos do que nos dois anteriores (ocorridos entre o primeiro trimestre de 1999 e o primeiro de 2001 e ao longo de 2002). Na atual fase de expansão do PIB, foram criados, em média, 315.468 postos de trabalho formais por trimestre, acima dos 190.603 de 2002.
Nelson Perez/Valor Caio Prates: crescimento neste ano é puxado pela demanda doméstica, com destaque para consumo e investimento
A atividade neste ano tem sido puxada pelo consumo das famílias e pelo investimento, segundo os economistas do Credit Suisse. O setor externo, que teve papel de destaque do começo do atual ciclo até o fim de 2005, terá contribuição negativa para o PIB em 2006 - o que não ocorre desde 2000.
Se confirmada a estimativa do Credit Suisse, de uma expansão de 1,4% do PIB no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2005, o crescimento médio trimestral no atual ciclo ficará em 2,9% (sempre na comparação com igual período do ano anterior). É mais que a média de 2,7% registrada entre 1999 e 2001 e do 1,9% de 2002.
Pelo critério adotado pelo Credit Suisse, o ciclo é interrompido quando há uma queda do PIB por dois trimestres seguidos na comparação com o trimestre anterior. No ciclo atual, o PIB só caiu no terceiro trimestre de 2005.
De meados de 2003 ao fim de 2004, a atividade foi liderada pelo investimento e pelo setor externo. A formação bruta de capital fixo (FBCF), que mede o investimento na construção civil e em máquinas e equipamentos, cresceu 10,9% em 2004. No ano passado, porém, a FBCF perdeu fôlego, afetada principalmente pela alta dos juros, iniciada em setembro de 2004. Neste ano, o investimento reagiu, passando a comandar a recuperação da atividade ao lado do consumo das famílias, ambos impulsionados pela queda dos juros, aumento da massa salarial, oferta de crédito e gastos públicos crescentes.
Para o Credit Suisse, a expansão da FBCF é um dos motivos que explicam por que o atual ciclo de crescimento é mais sustentável do que os dois anteriores. Do terceiro trimestre de 2003 ao primeiro trimestre deste ano, o investimento na construção civil e em máquinas e equipamentos cresceu 24%, na série livre de influências sazonais, ao passo que o PIB avançou 10,4%. Em 2002, a FBCF caiu 4,2%.
Com mais investimento, aumenta a capacidade produtiva, ainda que o investimento como proporção do PIB seja baixa. A relação deve fechar o ano em 21%, acima dos 19,6% de 2005, mas bem abaixo dos 31% da Coréia do Sul. Elevar essa taxa seria essencial para que a taxa média trimestral seja maior que os 2,9% observados de 2003 para cá, insistem os analistas.
A geração de empregos tem sido bastante robusta neste ciclo, o que se deve a uma expectativa de mais crescimento e menos inflação, segundo o economista Guilherme Maia, da Tendências Consultoria Integrada. Isso aumenta a previsibilidade na economia, dando mais confiança para as empresas contratarem funcionários, avalia ele.
O Credit Suisse também aponta a importância da solidez das contas externas para garantir uma expansão mais sustentável. "A mudança no setor externo ocorrida de 2002 para cá criou espaço para que o consumo e os salários cresçam sem que isso gere problemas no balanço de pagamentos."
Maia reforça essa idéia, ressaltando que as contas externas sólidas permitem um crescimento saudável do consumo e do investimento. Segundo ele, a reversão gradual dos elevados superávits externos é a "contrapartida" da expansão sem sobressaltos da demanda doméstica.
A inflação baixa e crescente também reforça a maior sustentabilidade do atual ciclo, segundo o Credit Suisse. Graças principalmente ao câmbio valorizado, a variação trimestral do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de julho de 2003 a junho deste ano é de 1,4%, inferior ao 1,7% do ciclo de 1999 a 2001 e aos 2,6% de 2002.
Ao analisar a composição do crescimento neste ano, fica claro que ele depende totalmente da demanda interna, como diz o economista Caio Prates, do grupo de conjuntura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A valorização excessiva do câmbio acaba por levar a uma expansão muito mais forte das importações de bens e serviços do que das exportações, o que deve fazer o externo "roubar" algo como um ponto percentual do avanço do PIB em 2006, que ele estima em 3,6%.
Prates diz que o dólar barato tem reduzido as quantidades exportadas e provocado um deslocamento da produção doméstica pelas importações, o que explica o desempenho mais fraco da indústria nos meses que se seguiram à queda da Selic, iniciada no ano passado. Ele nota que de setembro de 2005 a junho deste ano, a produção industrial cresceu apenas 2,2%. Nos ciclos anteriores de redução dos juros, a indústria avançou mais, como os 6,8% dos nove meses seguintes à queda da Selic iniciada em junho de 2003.
Para Prates, o menor dinamismo da indústria decorrente do dólar barato é um dos sinais de que a valorização do câmbio foi longe demais. Se de um lado ajudou a reduzir a inflação, de outro começa a afetar a atividade econômica.
O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre a ser divulgado amanhã deverá mostrar mais um avanço da atividade econômica, elevando a duração do atual ciclo de expansão para 12 trimestres, a mais longa em 19 anos. Iniciado na segunda metade de 2003, o ciclo se caracteriza, para alguns analistas, por uma trajetória mais sustentável, marcada por mais crescimento, menos inflação e maior geração de empregos do que nos dois anteriores (ocorridos entre o primeiro trimestre de 1999 e o primeiro de 2001 e ao longo de 2002). Na atual fase de expansão do PIB, foram criados, em média, 315.468 postos de trabalho formais por trimestre, acima dos 190.603 de 2002.
Nelson Perez/Valor Caio Prates: crescimento neste ano é puxado pela demanda doméstica, com destaque para consumo e investimento
A atividade neste ano tem sido puxada pelo consumo das famílias e pelo investimento, segundo os economistas do Credit Suisse. O setor externo, que teve papel de destaque do começo do atual ciclo até o fim de 2005, terá contribuição negativa para o PIB em 2006 - o que não ocorre desde 2000.
Se confirmada a estimativa do Credit Suisse, de uma expansão de 1,4% do PIB no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2005, o crescimento médio trimestral no atual ciclo ficará em 2,9% (sempre na comparação com igual período do ano anterior). É mais que a média de 2,7% registrada entre 1999 e 2001 e do 1,9% de 2002.
Pelo critério adotado pelo Credit Suisse, o ciclo é interrompido quando há uma queda do PIB por dois trimestres seguidos na comparação com o trimestre anterior. No ciclo atual, o PIB só caiu no terceiro trimestre de 2005.
De meados de 2003 ao fim de 2004, a atividade foi liderada pelo investimento e pelo setor externo. A formação bruta de capital fixo (FBCF), que mede o investimento na construção civil e em máquinas e equipamentos, cresceu 10,9% em 2004. No ano passado, porém, a FBCF perdeu fôlego, afetada principalmente pela alta dos juros, iniciada em setembro de 2004. Neste ano, o investimento reagiu, passando a comandar a recuperação da atividade ao lado do consumo das famílias, ambos impulsionados pela queda dos juros, aumento da massa salarial, oferta de crédito e gastos públicos crescentes.
Para o Credit Suisse, a expansão da FBCF é um dos motivos que explicam por que o atual ciclo de crescimento é mais sustentável do que os dois anteriores. Do terceiro trimestre de 2003 ao primeiro trimestre deste ano, o investimento na construção civil e em máquinas e equipamentos cresceu 24%, na série livre de influências sazonais, ao passo que o PIB avançou 10,4%. Em 2002, a FBCF caiu 4,2%.
Com mais investimento, aumenta a capacidade produtiva, ainda que o investimento como proporção do PIB seja baixa. A relação deve fechar o ano em 21%, acima dos 19,6% de 2005, mas bem abaixo dos 31% da Coréia do Sul. Elevar essa taxa seria essencial para que a taxa média trimestral seja maior que os 2,9% observados de 2003 para cá, insistem os analistas.
A geração de empregos tem sido bastante robusta neste ciclo, o que se deve a uma expectativa de mais crescimento e menos inflação, segundo o economista Guilherme Maia, da Tendências Consultoria Integrada. Isso aumenta a previsibilidade na economia, dando mais confiança para as empresas contratarem funcionários, avalia ele.
O Credit Suisse também aponta a importância da solidez das contas externas para garantir uma expansão mais sustentável. "A mudança no setor externo ocorrida de 2002 para cá criou espaço para que o consumo e os salários cresçam sem que isso gere problemas no balanço de pagamentos."
Maia reforça essa idéia, ressaltando que as contas externas sólidas permitem um crescimento saudável do consumo e do investimento. Segundo ele, a reversão gradual dos elevados superávits externos é a "contrapartida" da expansão sem sobressaltos da demanda doméstica.
A inflação baixa e crescente também reforça a maior sustentabilidade do atual ciclo, segundo o Credit Suisse. Graças principalmente ao câmbio valorizado, a variação trimestral do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de julho de 2003 a junho deste ano é de 1,4%, inferior ao 1,7% do ciclo de 1999 a 2001 e aos 2,6% de 2002.
Ao analisar a composição do crescimento neste ano, fica claro que ele depende totalmente da demanda interna, como diz o economista Caio Prates, do grupo de conjuntura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A valorização excessiva do câmbio acaba por levar a uma expansão muito mais forte das importações de bens e serviços do que das exportações, o que deve fazer o externo "roubar" algo como um ponto percentual do avanço do PIB em 2006, que ele estima em 3,6%.
Prates diz que o dólar barato tem reduzido as quantidades exportadas e provocado um deslocamento da produção doméstica pelas importações, o que explica o desempenho mais fraco da indústria nos meses que se seguiram à queda da Selic, iniciada no ano passado. Ele nota que de setembro de 2005 a junho deste ano, a produção industrial cresceu apenas 2,2%. Nos ciclos anteriores de redução dos juros, a indústria avançou mais, como os 6,8% dos nove meses seguintes à queda da Selic iniciada em junho de 2003.
Para Prates, o menor dinamismo da indústria decorrente do dólar barato é um dos sinais de que a valorização do câmbio foi longe demais. Se de um lado ajudou a reduzir a inflação, de outro começa a afetar a atividade econômica.