CUBA, FIDEL,CHE
Engenheiro Químico, 76 anos, mas aparentando menos, muito menos. Pesquisador bem posicionado na Procter & Gamble em Cuba, à época da Revolução, achava que a política era para os políticos e pelo grupo de Fidel não nutria qualquer emoção além de uma contida simpatia. Ainda em 1959 recebeu boa proposta para trabalhar na matriz em Cincinnati, Ohio.
Nada surpreendente, pois a orientação dos EUA era mesmo estimular a fuga de cérebros (dos seis mil médicos ficaram apenas três mil; de dois mil e setecentos engenheiros restaram setecentos). Tendendo a aceitar, foi até a embaixada dos EUA para uma entrevista com um dos vice-cônsules. Tinha na manga uma carta do vice-presidente da Procter & Gamble, mas antes de usá-la deparou-se com a arrogância do funcionário: “Você tem que provar que tem formação universitária”. Prontamente exibiu seu anel de formatura, mas o funcionário recusou, sem nem olhar em seus olhos. Diante do descaso, mandou-o à merda e decidiu ficar em Cuba. Estamos falando de Tirso Saenz, vice-ministro de Che Guevara no Ministério da Indústria e Comércio e um de seus colaboradores mais próximos. No convívio com o líder, Tirso percebeu que fazer a revolução é mais do que discutir Lênin ou Marx, e sim trabalhar cotidianamente para resolver os problemas do povo mesmo diante das dificuldades impostas pelo embargo econômico.
Entrevistadores: Marcelo Salles, Mariana Vidal e Bruno Zornitta. Fotos: Bruno Zornitta.
Marcelo Salles - Tirso, gostaria de começar com você contando um pouquinho da sua infância, suas primeiras lembranças.Eu venho de uma família muito humilde, de músicos. Meu pai era baterista de uma banda, mas queria que eu fosse um profissional. Ele me proibiu de ser músico, queria que fosse médico, advogado, engenheiro,... E finalmente eu ganhei uma bolsa para estudar engenharia química nos Estados Unidos. Fui lá, me formei como engenheiro químico e voltei para Cuba contratado pela Procter & Gamble. Não sei se vocês conhecem a Procter & Gamble, umas grandes transnacionais de produtos de bens de consumo. E estava muito bem, meu salário aumentava a cada ano,... e quando triunfou a revolução eles me propuseram sair para os Estados Unidos para trabalhar em Ohio. E eu não tinha nada contra a revolução, gostava de Fidel, mas achava que a política era para os políticos e que meu futuro técnico e familiar estava na Procter & Gamble. Eu tinha uma carta do vice-presidente da Procter & Gamble em Cuba e, para entrar na embaixada americana eu não tive que fazer uma longa fila de pessoas que estavam solicitando visto, mas tive que esperar várias horas para ser entrevistado por um vice-cônsul, que era o cara mais arrogante, mais nojento que conheci em minha vida. O cara me falou que eu tinha que demonstrar - foi então que notei a promoção da fuga de cérebros - que era universitário. Para provar mostrei o anel que recebi na universidade, nos Estados Unidos, e ele disse que não era suficiente: "Se você não me der uma prova de que é universitário eu não dou o visto para você". E eu tinha uma carta, era só mostrar a carta onde Mr.Garba, vice-presidente da Procter & Gamble, pedia para que me concedessem o visto, isso era mais que o suficiente. Mas fiquei tão zangado, tão magoado com esse cara arrogante que me olhava com desprezo, que o mandei à merda. Voltei para casa, minha esposa estava me esperando e perguntou: "O que aconteceu?" E eu disse: "Vamos ficar aqui para ver o que acontece". E ficamos. O que aconteceu é que um grande número de técnicos e especialistas da Procter & Gamble saíram e eu tive que tomar conta de uns cinco ou seis cargos ao mesmo tempo. E naquele momento já começava o bloqueio americano: falta de matérias-primas, materiais, falta de tudo. E eu tinha que trabalhar para resolver como produzir sabonete, detergente, shampoo, pasta de dente, cosméticos etc. Sem matéria-prima, sem nada. Isso foi um desafio no ramo técnico que eu tinha que enfrentar. E isso me entusiasmou! Esse tipo de trabalho me fez refletir sobre algo que, para mim, era muito importante. Agora estou trabalhando para o povo de Cuba, tratando de resolver problemas de como produzir produtos importantes para a higiene pessoal das pessoas, mas não com interesse comercial, de lucro de uma empresa, mas sim para resolver problemas vinculados à necessidade do povo. Isso me dava uma dimensão diferente da amplitude do meu trabalho, comecei a me sentir útil para um povo.
Marcelo Salles - E como você começou a perceber isso?
Trabalhando, buscando soluções: qual modificações temos que fazer nas fórmulas com as matérias-primas que temos ...
Marcelo Salles - Antes você já não fazia isso?
Mas com interesse comercial. Como fazer um bom sabonete com o melhor perfume. Agora não, com o bloqueio era diferente: como fazer um sabonete com as matérias-primas disponíveis. Era diferente. Eu falei uma vez na reunião da Federação de Mulheres Cubanas: "Vocês lembram nos primeiros anos da revolução que, quando vocês lavavam as roupas, tinham uma irritação nas mãos?" E elas: "Sim". Eu disse: "Sou o responsável". Porque era produzir com essa matérias-primas, mesmo sabendo que eram irritantes, ou não produzir. Um problema higiênico muito sério! Você imagina um povo não ter com o quê lavar uma roupa, não ter com o quê tomar banho. E esse tipo de trabalho, o de buscar soluções e ajudar as pessoas, me entusiasmou. Então foi necessário buscar um vice-diretor de refinação, ou seja, para a refinaria de petróleo do Instituto Cubano do Petróleo. A indústria do petróleo é muito complicada. Marcelo Salles - Isso já no começo? Isso foi em 1960. A indústria do petróleo tem características diferentes. Primeiro eu não conhecia nada de indústria de petróleo, conhecia, e era bom, em sabonetes, detergentes... Para mim, como refinar petróleo era algo desconhecido. Outra coisa: uma indústria de sabonete pode parar um mês, as pessoas vão cheirar mal, a roupa vai ficar suja, mas o país pode avançar. Mas você parar uma semana a indústria do petróleo, o país pára: transportes, fábricas, energia, tudo. Era um trabalho de uma responsabilidade grande. Com o bloqueio, estávamos importando petróleo soviético diferente do petróleo que importávamos anteriormente, os problemas com a indústria eram tremendos, faltavam peças de reposição, 75% dos técnicos da indústria do petróleo foram embora. Então, enfrentar tudo isso era outro desafio, mas foi interessante. E eu fui convocado para esse cargo quatro meses depois que estive na embaixada norte-americana, porque já nesse momento eu era considerado um técnico revolucionário. Não porque eu era comunista, mas por que trabalhava muito e resolvia problemas. E isso é fazer a revolução! Fazer a revolução não é só falar muito da revolução, de Marx, de Engels, de Lênin, é fazer coisas. E de repente, me vejo sendo convocado a ser vice-diretor da indústria da refinação porque eu era um técnico revolucionário, que não só tinha que enfrentar problemas técnicos, mas também tratar de trabalhar politicamente com os engenheiros que estavam na refinaria de petróleo para que eles ficassem, que compreendessem a revolução, que não fossem embora. E isso me preocupou, então pedi uma entrevista com Che Guevara, a primeira entrevista que tive com ele. Marcelo Salles - Foi a primeira vez que você o viu pessoalmente? Eu o conhecia, sabia que ele era o grande chefe de todos os negócios, que o petróleo era parte da questão, mas pedi para falar com ele por que eu não queria que considerassem que eu era um oportunista, que estive há quatro meses na embaixada, prestes a abandonar o país num momento tão complicado. Então pedi ao chefe de gabinete para falar com ele. "Ok, o Che vai te receber às duas horas". "Ok, amanhã eu vou estar aqui às duas horas da tarde". "Não, será às duas horas da madrugada". É que isso era normal para Che, trabalhar na madrugada. Bom, ele me recebeu, eu contei essa história para ele e ele me falou: "Você vai embora?". "Não, vou ficar aqui". "Você quer trabalhar conosco?". "É, quero. Vou trabalhar". "Acho que você é uma pessoa honesta. Então, vamos trabalhar". O interessante é que depois, durante anos, o Che nunca falou nessa questão, de que pensei em deixar o país ... Ao contrário, isso foi nos anos 60, o ano de 61 eu estive todo na indústria do petróleo e em 62 ele me nomeou vice-ministro. Ele me deu toda a confiança para trabalhar e assim foi como eu conheci o Che.
Marcelo - Eu tenho a curiosidade de saber o que mudou, principalmente, na vida do homem comum de Cuba, após a revolução. Bom, eu diria várias coisas. Acho que foi a dignidade de sentir-se cubano, ou seja, deixar de ser cidadão de um país dominado pelos americanos e ser agora cidadão de um país independente que manada à merda os Estados Unidos. Um país soberano. Acho que esse sentido de dignidade nacional foi fundamental, sentir-se parte de uma revolução. E outra coisa importante: tenho oferecido muitas palestras e uma vez uma pessoa falou "você pode falar essas coisas porque você foi vice-ministro, foi vice-presidente da Academia de Ciências, ..." Eu falei não, você pode chamar um simples operário e perguntar quais suas experiências com a revolução cubana e muitos falarão que combateram na Baía dos Porcos, combateram na luta dos Cambraios, combateram em Angola, que construíram fábricas, que construíram policlínicas, que ajudaram a construir escolas, ou seja, é um povo que está sendo ator de um processo”. Ou seja, não é uma elite que está construindo um governo ou qualquer coisa assim, é a incorporação de todo um povo, todo um povo a resolver os problemas de diferentes formas. Estou seguro de que, se você falar com qualquer cubano, ele tem histórias para contar. Eu tenho minhas histórias, que são boas, mas há histórias tão boas como as das pessoas que combateram em Angola, pessoas que foram à colheita da cana, ou seja, um povo que não só se sente soberano, mas também ator de um processo. Isso, para mim, é uma mudança fundamental. E sinto um grande respeito por Fidel, porque ter um líder com uma dimensão universal como ele é algo tremendo, eu diria que é uma das mudanças mais importantes que experimentou o povo cubano. Bruno - Aqui no Brasil, com o oligopólio da mídia, a gente sempre tem a imagem de Cuba mostrada no Jornal Nacional, o telejornal da noite, ou a imagem mostrada pela revista Veja, a revista mais vendida, literalmente, aqui no nosso país. É a imagem associada a uma ditadura onde as pessoas não têm liberdade. Como é que você vê essa questão da liberdade? Olha, eu fico muito zangado quando vejo a propaganda sobre Cuba. Eu diria que a melhor forma de constatar é... Você tem que ir a Cuba! Tratar de ir a Cuba e falar com as pessoas. Você não vai ter um policial ou um cara de segurança vigiando você; você fala. Tem eleições, aqui não se fala disso. Fala-se que não existem eleições. Eu conheço isso pessoalmente, que meu filho foi deputado municiapl e provincial quatro vezes e foi eleito pelo voto, e foi proposto na comunidade como candidato. Um país onde o voto não é obrigatório, ou seja, as pessoas vão votar por que querem votar, ninguém está vigiando se você foi votar ou não. Quando você vê que 95%, 96% da população vota, e é um voto não obrigatório, você tem um indicador de quantas pessoas estariam de acordo com a revolução. Uma pessoa pode não ter ido votar porque estava doente, mas vamos achar que todos que não foram votar estão contra? Votos brancos, votos nulos, isso dá 10% a 12% do total. Então você vê que 88% da população está a favor. Quantos governos têm 88% das pessoas a favor? Poucos. Liberdade. Eu diria: onde existe realmente liberdade de imprensa? Com essa mídia que você está mencionando. Os pobres, a classe oprimida, realmente têm poder na mídia para poder fazer algo? Não têm. Agora, em Cuba temos uma pressão dos americanos enorme. Em Cuba não existe embaixada dos Estados Unidos, existe o que se chama Escritório de Interesses. Esses Escritórios financiam abertamente, sem segredos, um programa que dá recursos a grupos dissidentes em Cuba. Ele não trabalham, vivem do dinheiro fornecido pelo Escritório de Interesse norte-americano para derrubar o governo de Castro, ou seja, esse cara é inimigo da revolução e, por isso, uma imprensa a favor dessa pessoa não é permitida. E não é! Que isso não é inteira liberdade de imprensa, eu concordo, mas tem que ser assim. É uma luta em que o povo de Cuba está arriscando sua existência, seu futuro. Não pode estar em mãos de uma mídia que esteja propiciando a divisão, a luta contra o governo. Um fator importante para manter o processo revolucionário é a unidade, para poder enfrentar tanta dificuldade que o povo cubano está enfrentando. São situações difíceis, o problema do bloqueio... Nosso comércio natural é com os Estados Unidos, a distância entre nós é de 140KM. O mercado natural seria comerciar com os Estados Unidos e o nosso mercado natural, devido ao bloqueio, tem sido com a Europa, a milhas de distância. O custo do transporte... Um barco que entra em Cuba com mercadorias não pode entrar nos Estados Unidos até seis meses depois e, por isso, cobram 40% de custo adicional. Ou seja, é uma luta muito complicada em que a liberdade de imprensa não é grande porque não pode, é uma questão de sobrevivência. Então, fale com o povo cubano. Cuba tem onze milhõe s de habitantes e você vai encontrar onze milhões de sugestões diferentes sobre como resolver um problema. O cubano discute tudo de 85% a 88% desse povo está a favor da revolução cubana e é por isso que a revolução cubana está sobrevivendo a tantos problemas depois de quarenta e seis anos.
Bruno Zornitta - Uns dias atrás a gente viu um filme chamado Surplus e, nesse filme, uma das cenas que mais me chamou a atenção foi o momento em que a câmera filmava um outdoor em Cuba escrito "consuma somente o necessário". E aquilo me impressionou muito porque é uma propaganda totalmente contrária a tudo o que a gente está acostumado a ver. E, pensando na questão de que os produtos lá são mais funcionais, sem aquela necessidade de vender, eu queria saber: como é a propaganda em Cuba?
Não se trata de uma sociedade consumista, mas de uma sociedade que consome o que é necessário. Por exemplo, numa campanha muito forte para reduzir o consumo de energia mobilizaram as crianças, chamadas Patrulhas Click – de fazer um click no interruptor. Para que as crianaças, nas casas, tenham a consciência de que têm que poupar energia. É despertar uma consciência nas crianças, desde que são crianças, para a questão do consumo, ou seja, uma sociedade consumista é uma sociedade que, para nós, seria muito complicado. Para qualquer país subdesenvolvido. Ou seja, devem consumir somente o que é necessário, não ter grandes diferenças sociais, pessoas que ganham muito dinheiro e pessoas que ganham muito pouco. Não é igualitarismo, mas uma sociedade mais justa, de melhor distribuição de recursos, fazendo um esforço pessoal.
Mariana Vidal - Você falou agora há pouco, do grande líder que é o Fidel e da continuidade da revolução cubana. Em janeiro estive no Fórum Social Mundal, conversei com o pessoal da Prensa Latina e discutiu-se muito isso, a questão da continuidade da revolução. E eles deixaram bem claro: "Fidel não é a revolução, a revolução está no povo cubano, Fidel é só um líder". Na sua opinião, se Fidel viesse hoje a falecer, como é que ficaria a revolução cubana, teria realmente continuidade? Sem dúvida Fidel tem um carisma extraordinário. Poucas pessoas na história da humanidade têm o carisma de Fidel. Muitas pessoas se surpreendem: "Fidel falou quatro horas"! Quatro horas é muito, seis é demais, mas você tem que escutar Fidel, quatro, seis horas falando; você está entendendo a mensagem que ele está transmitindo. E quando falta Fidel vai faltar o carisma de Fidel. E não é fácil conseguir outra pessoa com esse mesmo carisma. Agora, o que vai ficar, ainda Fidel não existindo, é o ensino de Fidel, a ética que Fidel ensinou ao povo, isso não vai faltar. Cuba tem pessoas que poderiam ser magníficos presidentes de qualquer país da América Latina, eu poderia mencionar cinco ou seis pessoas que, para mim, pderiam ser presidentes de qualquer país da América Latina. Ou seja, substituto capaz politicamente, administrativamente, socialmente para dirigir o país, isso existe, mas vai faltar o carisma de Fidel. E Fidel falou uam vez: "a revolução é maior que nós", ou seja, a revolução é muito maior que o próprio Fidel, porque tem-se um povo capaz de avançar sem ele.
Bruno Zornitta - A imagem de Che Guevara tem sido muito utilizada pela sociedade de consumo e eu queria saber como você vê essa apropriação da imagem de Che Guevara por um sistema contra o qual ele lutava. Isso me deixa muito zangado. As camisetas, os cartazes do Che... Mas você tem que separar duas coisas: tem pessoas que usam cartazes e camisetas por um respeito ao Che, não por uma necessidade de consumo. Não é o Brad Pitt que está aqui, não é um artista que eu quero mostrar, é o Che Guevara que eu admiro. E você tem que ter cuidado, porque você precisa produzir cartazes, camisetas e coisas do Che precisamente para pessoas que admiram o Che, e isso não seria comercializar porque o primeiro que estaria contra isso é o Che, porque não gostaria disso.
Bruno Zornitta - É que acontece uma banalização também, por exemplo, eu estava pesquisando na internet sobre o tema e encontrei um site chamado The Che history - for all your revolutionary needs, para todas as suas necesssidades revolucionárias, com vários artigos do Che... É... Eu não conheço esse site, mas tem muitos. Tem muitos livros... Tem livros que são uma bosta completa. Acho que os motivos para eu escrever esse livro foram dois: primeiro, vi os livros que saíram publicados aqui, que eram de autores norte americanos e mexicanos. Um livro grande, com a biografia do Che. Eu conheci antes um, em Cuba, e era uma bosta. Tem outro que é um horror, a biografia de Castajeda, mexicano. Outro, que foi melhor, de Inácio Taigo, também mexicano, mas fraco. E sempre eu sentia que faltava... Que nesses livros a ênfase era sempre o Che na guerrilha, o Che na Sierra Maestra e faltava esse Che cotidiano, esse Che ministro, que dava uma lição diferente de um Che guerrilheiro. O Che da guerrilha se converteu num cone, uma espécie de santo, irrepetível, que já não vai acontecer mais, morreu e acabou. Mas esse Che ministro, austero, honesto, com visão estratégica, exigente, com sentido da importância da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento, com sensibilidade humana, esse é o Che irrepetível, o Che necessário. É necessário hoje, nós necessitamos muito de ministros como o Che. Hoje! Não é algo de história, é algo de presente e de futuro. Isso foi o que me decidiu a escrever esse livro, mostrar um Che que não é um ícone histórico, mas um exemplo de presente.
Marcelo Salles - Você acha que o Che, por ter sido ministro e ter toda essa visão estratégica que você descreve no livro, teria se precipitado ao abandonar o posto dele e ter ido para a guerra? Como você analisa essa decisão dele? Nesse momento, nesses anos 60, eram ditaduras em toda a América Latina. Acho que exceto México, Costa Rica... Então Che falou com Fidel que sentia que tomando a experiência da revolução cubana, poderia impulsionar as guerrilhas como forma de libertação do povo da América Latina. Ele se sentia comprometido com isso e firmou um compromisso com Fidel nesse sentido. Como você vê no livro, uma característica do Che era ser exemplo pessoal. Ele era o primeiro que chegava no ministério e o último que saía. Ele promovia que todo mundo estudasse, mas ele era o primeiro que estudava, ele foi nosso professor de computação. Ou seja, esse Che que era exemplo pessoal se sentiria muito mal havendo ações de libertação na Argentina, Bolívia, Guatemala e ele de ministro em Cuba, num escritório com ar-condicionado. Nesse compromisso com Fidel ele disse: "Agora que ministério das indústrias já está caminhando, eu tenho que ir à luta". Inclusive com condições físicas muito difíceis. Não sei se vocês viram o filme de Walter Salles, os ataques de asma do Che eram horríveis. Ele sabia que seus ataques de asma iriam ser terríveis, e ele foi! Sabia que as possibilidades de morrer eram grandes, e ele foi! Ele era um exemplo, e parte desse exemplo era ser parte da guerrilha que ele estava promovendo.
Mariana Vidal - Quando Lula chegou no poder, esperava-se uma aproximação maior entre Fidel, Lula e Chávez. Hoje você vê Fidel e Chávez fazendo tratados e o Lula meio à parte. Ficou alguma decepção, por parte dos cubanos, do rumo que o governo Lula levou?
Eu não gostaria, como cubano, de opinar sobre o governo Lula.
Marcelo Salles - E o acordo energético de Caracas, em 2000? Furou o Bloqueio. Isso foi uma boa coisa.
A Alba... Marcelo - A Petrosul, a Telesur... Isso são medidas concretas. Até agora a Alca é retórica. A questão da Petro Caribe, dando petróleo barato aos países do Caribe, negócios com Cuba, promovendo acordos comerciais, Cuba dando assistência médica à Venezuela. Isso são medidas econômicas concretas, muito favoráveis. Eu acho que a Alba é uma alternativa diferente à Alca, e que está começando. Marcelo Salles - Na Casa Branca foi criado, há cerca de um ano, um departamento para negociar o que eles estão chamando de reabertura de Cuba ou redemocratização de Cuba. Queria saber como você está vendo esse recrudescimento da pressão dos Estados Unidos sobre Cuba. Isso mostra a prepotência dos Estados Unidos no mundo monopolar. Os Estados Unidos não tem direito nenhum de intervir na questão de Cuba, isso é um problema dos cubanos. E eles estão financiando agressões contra Cuba, dissidências contra Cuba, financiando estações de televisão e de rádio contra Cuba, aumentando cada vez mais o bloqueio. Isso é injusto, eles não têm o direito de fazer isso. Eles estão financiando grupos dissidentes dentro de Cuba e defendendo terroristas dentro dos Estados Unidos. Tenho uma história pessoal nessa questão do terrorismo. A primeira vez em que estive no Brasil, ano 1974, eu era presidente da Comissão de Energia Atômica em Cuba e o Brasil estava desenvolvendo o programa nuclear com a Alemanha. Estive aqui para essa reunião da Organização Internacional da Energia Atômica e, estando aqui, os mexicanos nos pediram para ir ao México assinar um protocolo de colaboração e trocamos nossas passagens para voltar a Cuba. Era Rio-Caracas-Barbados-Havana. O avião em Barbados explodiu com uma bomba. O autor dessa explosão está em Miami, foi depois quem tentou fazer o atentado terrorista contra Fidel no Panamá. Quando estive na refinaria de petróleo, explodiram uma bomba junto à refinaria. Um barco pirata ancorou junto à refinaria e foi resgatado por um submarino norte-americano. Isso não é terrorismo? Que moral têm os americanos para fazer essas coisas? Deixem os cubanos organizar suas vidas, os americanos não têm por que entrar nessa questão. Cuba não tem as eleições como os americanos gostariam, a Arábia Saudita tem porque apoiaram Pinochet todo esse tempo, porque apoiaram Batista quando era ditador em Cuba, porque apoiaram todas essa ditaduras na América Latina durante todo esse tempo. Por que tem que chamar a Fidel Castro de ditador? Simplesmente porque não é um regime que está a favor deles. Simplesmente porque manteve-se firme comandando um país soberano. Ou seja, isso é uma imoralidade. Marcelo Salles - Eu estava conversando com uma amiga e ela dizia que a pressão de um país que tem a tecnologia nuclear sobre outro é definitiva. Mas, se fosse assim, os Estados Unidos já teriam invadido Cuba. Eu queria saber o que tem em Cuba que impede os Estados Unidos, a maior potência do mundo, de retomá-la num primeiro momento, nem na tentativa de invasão à Baía dos Portos e nem depois. O que tem em Cuba que eles não conseguem entrar? A moral do povo. Acho que é isso o mais importante: demonstrar que o povo todo resistiu a esse grande poderio e ainda sustenta-se por mais de quarenta e cinco, quarenta e seis anos. Acho que é de suma importância o exemplo do povo cubano. Porque Cuba não tem grandes riquezas, Cuba não é uma potência militar, ainda que os cubanos saibam combater. Se o apartheid foi eliminado no cone sul da África, se a África do Sul tem uma situação diferente, se a mídia está diferente, se a antiga Grécia conseguiu a liderança, foi graças ao sangue dos cubanos que foram lutar lá. Eu não estou dizendo que Cuba é um a potência militar, mas o cubanos sabem combater e uma agressão direta a Cuba não é tão fácil.
Marcelo Salles - Cuba hoje continua preparada para resistir?
Totalmente. Cuba nunca deixou de estar preparada para combater, mas para defender-se, não para atacar. Bruno Zornitta - Quais são as melhores lembranças que você tem do Che Guevara? Tem que ler o livro! Lembro de muitas coisas: a sensibilidade humana, amizade, exigência. Como ele ficava muito bravo quando acontecia alguma negligência, uma irresponsabilidade, mas esse humor e sentido de amizade... Ele era um chefe e um amigo. Muito exigente, muito trabalhador e um exemplo pessoal, aprendi muito com ele.
CAROS AMIGOS