Corrupção: hipocrisia e má fépor Izaías Almadapara
Caros Amigos
Um famoso personagem da galeria de tipos do humorista Chico Anísio costumava terminar o seu quadro com o bordão: "sou, mas quem não é?" O humor inteligente é sempre corrosivo nas suas críticas aos costumes e às mazelasdo ser humano. Tem sido assim de Aristófanes aos nossos dias. A lembrança vem a propósito da tentativa de golpe branco, até agora não assumido ou momentaneamente amortecido, e criado pela mídia e por alguns representantes das classes dominantes brasileiras, agora sob a administração política de parlamentares oposicionistas e conspiradores do PSDB e do PFL em particular. A "crise" originou um fato muito curioso e que poderá no futuro ser melhor explicado por nossos sociólogos, historiadores e analistas políticos (os que não estão comprometidos com a manutenção da economia e da política neoliberais, é verdade).Trata-se da aceitação, quase que incondicional, de que o Partido dos Trabalhadores é o inventor da corrupção no Brasil e que alguns de seus dirigentes e militantes devem ser investigados e punidos exemplarmente (se possível com a forca e em praça pública e seguido pela salgação dos corpos) para que essa praga, a corrupção, não se alastre pelo país e possa contaminar toda a sociedade brasileira. Santa hipocrisia e desavergonhada canalhice! O PT ou a parte dele envolvida nas denúncias, desde que comprovadas, não está - no caso - inovando absolutamente nada. Tudo indica que, infelizmente entrou num jogo para o qual não havia defendido tese. E o que se fala demeias-verdades, mentiras e bobagens a propósito do assunto, isso sim, é que impressiona. Em particular alguns intelectuais, até mesmo de esquerda ou assim considerados, que tentam encaixar a realidade no seu conhecimento livresco e acadêmico, repetindo-se uns aos outros, muitas vezes botando a nua mediocridade dos nossos pensadores. Para além das desacreditadas sessões de investigação parlamentar e páginas emais páginas de bravatas e linguagem chula de algumas das principaisrevistas semanais e dos jornalões diários, onde muitos jornalistas e articulistas aproveitam para destilar o seu preconceito político e matiz ideológico, com argumentação geralmente sofista e hipócrita, pinço aqui afrase de um cientista político em entrevista à jornalista Lílian Witte Fibe na UOL News dias atrás: "Num país civilizado essas pessoas já estariam presas". Frase preconceituosa contra o próprio país e, para dizer o mínimo, mentirosa, pois nos chamados países 'civilizados' (seria uma referência aos EUA, a Inglaterra, a Itália, a França, a Alemanha, ao Japão, etc.?) além detambém fazerem vista grossa a muitos casos de corrupção, e eles existem por lá mais do que se imagina, carecem atualmente do epíteto de civilizados,pois é só olhar para o que fazem no Iraque, no Afeganistão, na Cisjordânia,no Haiti, na África de modo geral, em New Orleans, sua própria casa ou na estação de metrô de Stockwell em Londres, onde a ordem passou a ser atirar para matar em tudo o que não seja loiro de olho azul. Como se vê, é mais umintelectualóide que não conhece o seu próprio país e menos ainda os países"civilizados". Abriu-se o baú das frases feitas, proferidas pelos profetas da moralidade epuseram-se todos a deitar falação, repetindo-se uns aos outros (insisto: a mídia brasileira e alguns intelectuais e acadêmicos não criam, repetem-se),verdadeiros papagaios da mediocridade com que se faz política no Brasil. Como o Sr. Cláudio Lembo em recente programinha do PFL na TV, a dizer que nunca houve tanta corrupção no Brasil. Será que o Sr. Lembo passou muitos anos fora do Brasil, lá nos tais países civilizados do nosso cientista político acima citado? E por aí vamos, bebendo o veneno diário da mídia vendida e canalha, substituindo o Ratinho pelo Roberto Jefferson, a polícia pelas CPI's ,distribuindo preconceitos e julgamentos antes que os acusados possam se defender, numa vergonhosa promiscuidade corporativista e sistêmica, numa afronta às democracias que tanto defendem, pois elas são muitas, consoante o interesse de momento de cada um (não é mesmo Sr. Bresser Pereira?), ondequase todos os interessados que têm o rabo preso insistem em defender o indefensável: a democracia representativa brasileira, fundamentada numa constituição remendada ainda à luz da polaca e do golpe civil-militar de 1964 e que, mesmo melhorada em 1988, ainda abriga e contempla em suaexpressão política a existência de partidos políticos fisiológicos e sem compromisso com a população, com os cidadãos que dizem representar. Uma Constituição ainda com fortes pendores oligárquicos. São políticosinsensíveis, eleitos em sua maioria pelo poder do Caixa 2, pela corrupção econômica, beneficiários diretos da perversa divisão da sociedade entre 20% de privilegiados e 80% de uma massa de miseráveis e desprotegidos. O Congresso Nacional transformou-se, em grande parte, em cabide de empregos e ante-sala de lobbies contra o povo e a soberania nacional. E sabem o porquê de tanta falação? Porque ela, a falação, procura esconder o óbvio: trata-se aqui do aprofundamento da luta de classes no Brasil. Sim,meus senhores, luta pelo poder político, mas também luta de classes. E não apenas de corrupção, como nos querem enfiar goela abaixo. A História não acabou, Marx continua vivo (eleito neste ano de 2005, na Inglaterra, o maiorfilósofo de todos os tempos) e ainda existem alternativas viáveis ao moribundo neoliberalismo globalizado. A aceitação dócil, a crítica, acima referida sobre a prática da neocorrupção petista, se dá no cotidiano dos contribuintes e eleitores, de todos nós brasileiros, enfim, incluindo-se os próprios petistas, ex-petistas, homens e mulheres de esquerda, de direita de centro, de lado nenhum, da classe média emergente, dos novos-ricos e seus analistas políticos e intelectuais formadores de opinião que se dizem "perplexos com o que está acontecendo". Será que o povão está mesmo perplexo? Peçam aí a um desses institutos depesquisa para medirem qual é o grau de perplexidade da periferia sem esgotose água encanada, das favelas e dos grotões brasileiros mais longínquos e miseráveis, desses brasileiros subnutridos, mais preocupados em conseguir emprego e em ter o que comer no dia-a-dia. Esses que, enfrentando o sub-emprego, lotam os ônibus de madrugada para ir ao trabalho e que fazem enormes filas para serem mal e porcamente atendidos nos postos do INSS ou que fazem filas nas portas dos presídios e das Febens... Que ainda comem farinha de mandioca e tiram água salobra de poço para beber nos sertões. Mas afinal, o que é que está acontecendo assim de tão excepcional no Brasil neste momento para que a pequena e grande burguesia (principalmente), a nossa classe média adoradora do "american way of life" ou da envelhecida burguesia européia, que lêem e assistem a criticamente a mídia venal, ficarem assim tão escandalizadas? Como se tivessem todos visto o diabo... Que perplexidade é esta agora, num país em que o cidadão até para ser honesto e sobreviver, aprendeu a apelar para a corrupção há exatamente 500 anos? Não entenderam o paradoxo? Eu me explico: conhece o leitor alguém que teveum dia de comprar uma notinha fiscal para fugir aos inúmeros impostos apagar? Ou que abriu a sua empresa numa cidade vizinha a São Paulo, Rio, BeloHorizonte (ou outra grande capital) para pagar menos impostos, ou molhou amão do guarda para não levar uma multa de trânsito? Ou emplacou o seucarrinho noutra cidade que não aquela em que vive para fugir impunemente àseventuais multas de trânsito? Ou aceitou pagar a médicos e dentistas sem orecibo para fugir aos impostos? Ou furou a imensa fila do cinemaaproveitando o amigo que chegou mais cedo? Ou comprou ingresso de cambistas?Ou fez vista grossa a uma licitação da empresa em que trabalha para nãoperder o emprego? Quem é que sustenta o mercado da droga, o traficante ou o consumidor? Quem é que exige nota fiscal nos bares e restaurantes ou grifes da moda? Ou quem é que pede uma ajudazinha ao amigo do fiscal da alfândega para passar um produtinho trazido do exterior? Ou vende doces, sanduíches e roupas sem nota fiscal ou faz compras pela Internet sem pagar impostos ou mandou limpar o prontuário do Detran num desses escritórios especialistas em zerar multas de trânsito?. Ou compra trabalhos prontos para apresentar na pós-graduação universitária? Ou traz cigarros e uísque do Paraguai? Ou sustenta o comércio ilegal de produtos eletrônicos e cds piratas? Ou criminosamente ilude os pobres com a exigência de dízimos religiosos indecentes e não paga imposto sob o manto nefasto da religiosidade?...Ou passa no sinal vermelho e ultrapassa pelo acostamento...Ou comprou a cartade motorista?...ou... ou... e aqui poderíamos encher mais de uma página depequenos ilícitos praticados no dia-a-dia pelo conjunto dos cidadãos, onde o mercado publicitário, as empresas de informática, os bancos e algumas igrejas evangélicas são os maiores ninhos de lavagem de dinheiro no país, conforme relatórios da Polícia Federal. Apenas pelo fato de que o dedodurismo e o denuncismo atingiram a um partido que sempre pregou a "ética e a transparência na política", o mundo caiu?"Ah, mas é que eles mostraram que são iguais ou piores do que os outros!","iguais ou piores do que nós", "renegaram suas bandeiras históricas", comose isso zerasse a corrupção no Brasil e inocentasse os outros 500 anos dedesmandos, ladroeira e impunidade dos endinheirados que sempre governaram emandaram nesse país. As nossas chamadas elites, rurais ou urbanas, nordestinas ou paulistas, da soja, do café e da cocaína, dos juros bancários, dasluzianas e não só. Ao sermos inquiridos pelos Poncios Pilatosda mídia comprometida com os interesses da classe dominante e por alguns deputados e senadores com complexo de policiais, a quem realmente queremos crucificar assim do dia para a noite, respondemos, muitos até sem pensar: ao PT, ao PT, aos traidores da pátria e do povo brasileiro! E lavamos as mãos,como se muitos de nós não houvéssemos contribuído de alguma maneira para a situação que vive o país agora e já viveu em outros momentos de sua história. Como se muitos dos construtores históricos do PT não tivessem,eles também, de alguma maneira contribuído ativa ou passivamente para o partido chegar à situação em que chegou. Quem é que votou no Collor, o caçador de marajás? Collor também não foi eleito e apoiado por muita gente de esquerda inclusive? Getúlio Vargas não se matou acuado pela direita do seu tempo? João Goulart não foi deposto porum golpe civil e militar para "livrar o Brasil da corrupção e do comunismo"? O que é que fazem os empresários e publicitários Duda Mendonça e MarcosValério (e tatos outros que ainda não apareceram no noticiário) que milharesde empresários, publicitários ou não, e cidadãos brasileiros não fazem noseu dia-a-dia? O que difere o senhor Daniel Dantas do Sr. Marcos Valério, para ficarmos num único e emblemático exemplo? Uns mais e outros menos? Será a corrupção apenas uma questão de cifras e de cronologia ou é inerente asistemas econômicos que privilegiam o dinheiro, o sucesso a qualquer preço eo lucro como conquistas fundamentais do ser humano?E aí a máxima de que o brasileiro não tem memória política nem histórica se confirma com triste contundência. Com uma singular ironia de modernidade: no início dos anos 80, os sons que saiam do estádio de Vila Euclides davamconta de que o recém fundado Partido dos Trabalhadores finalmente seapresentava como o grande transformador e defensor dos excluídos do país, ignorando a luta de milhares de brasileiros que antes de 1980 já brigavam por um Brasil mais digno e justo, mais solidário e soberano, até por um Brasil socialista.Não, não vou atirar pedras no PT, nos seus dirigentes e militantes, mesmo que alguns deles tenham em nome de uma estratégia diferente da minha,escolhido o caminho das alianças inadequadas e estancado, por enquanto, avia para um caminho de transformação consistente e inequívoco para o país. Penso que o PT e particularmente muitos dos seus militantes pagam nessemomento um preço muito alto por terem entendido que poderiam fazer mudançasdentro do sistema da democracia burguesa representativa, afastando-se de seu principal aliado, o povo, que continua a viver da exploração do trabalho nos campos e nas cidades, empregados ou não, analfabetos ou não, doentes ou não.Essa ilusão, criou em parte a situação vivida pelo partido agora e sufoca,momentaneamente, a todos aqueles que ainda acreditam na alternativa socialista. Os crédulos pagaram um preço mais alto ainda por acreditarem num homem chamado Luís Inácio Lula da Silva, o "primeiro operário a chegar àpresidência da República". E daí? Não é a origem de classe que determina o caráter de uma pessoa e muito menos o classifica ideologicamente como um transformador, um revolucionário.Mas a política é isso mesmo para muitos de nós: uma luta diária de resistência ideológica, de um recarregar de baterias contra a cooptação docapital e de seus defensores, normalmente armados de outros "mensalões", decorrupções que não aparecem em seus grandes jornais, revistas e canais de televisão. É resistir à linguagem enganosa da publicidade que vende a idéia,num país de pobres e analfabetos, de que só tem valor quem tem sucesso e dinheiro. Que mercantiliza a cultura e a educação e privilegia o doutorado e o mestrado conseguidos através dessa mesma mercantilização. Essa mesma publicidade que elegeu o marketing político como uma coisa sadia einteligente, quando outra coisa não faz senão vender gato por lebre,confundindo ideologia com sabonete. Criminosos vendedores de ilusões e falsas promessas. A propósito, outros publicitários e outras agências depublicidade deveriam ter seus negócios investigados como os do senhor Marcos Valério, pois se é para pôr o dedo na ferida, então é preciso extrair o pusaté limpar todo o organismo.Vamos, pois, deixar de hipocrisia e procurar saídas mais dignas, como arealização de um referendo popular em que o povo possa se expressar livremente, possa dizer, por exemplo, se quer a continuação e a candidaturade Lula à reeleição, ou - se necessário - a convocação de uma AssembléiaNacional Constituinte e a respectiva elaboração de uma nova Constituição para o país, que possibilite maior participação e decisão popular nas questões mais relevantes de nossa soberania e independência, maior transparência na representação política e uma sadia defesa dos interesses nacionais, da soberania nacional. O que não dá é para acreditar na seriedade e honestidade política de homens como Arthur Virgílio, Jorge Bornhausen, ACM's avô e neto, FHC, Alckmin, Goldman et caterva. Ou a sociedade brasileira se organiza e aproveita a crise para dar um passo decisivo na busca de maior afirmação política, consciente, reveladora deintenções transformadoras legítimas mais a médio e longo prazo, ouchegaremos às eleições de 2006 ainda mais confusos e sem perspectivas do queestamos agora. Não é hora de dividir, mas de juntar forças contra o que demais retrógrado e conservador se esconde pelo jogo de poder montado pelos fariseus e entreguistas do PSDB, PFL e seus porta-vozes na mídia brasileira. Crucificar o PT e enxovalhar a esquerda é exatamente o que quer essa gente.2006 pode ser um divisor de águas na história política do Brasil contemporâneo, mas é preciso não cair no canto da sereia neoliberal e nos deixarmos enganar pelos discursos do denuncismo de mão única, de delações premiadas e entregarmos de vez o galinheiro à guarda das raposas.
Izaías Almada é escritor e dramaturgo.