09 novembro 2005


Tentativa de golpe branco

Deputado diz que PSDB quer criar clima de golpismo, acredita em absolvição e fala de livro em que vai revelar bastidores do poder

09/11/2005

N esta parte da entrevista, José Dirceu fala sobre projetos de fazer livro a respeito dos 30 meses na Casa Civil. Ao contrário do divulgado na imprensa, não pretende ir para uma ‘ilha deserta’ com escritor Fernando Morais para realizar gravações. “Pode ser num apartamento mesmo”, diz sorrindo. Apesar da tensão que antecede o dia final que será julgado pelo plenário da Câmara dos Deputados, afirma que assiste muitos filmes e corre todos os dias. Nega com convicção qualquer estado depressivo. Mas denota estar ansioso para a chegada do grande dia que será julgado. Não perdoa a oposição e compara a prática política do PSDB com o PT quando estava fora do poder. Diz que Fernando Henrique Cardoso recebeu melhor tratamento do que Lula.
“Não defendi o Fora-FHC”, fala. Para o parlamentar, existe uma tentativa de golpe branco contra a sustentabilidade do governo Lula. E o PSDB seria o instrumentalizador.
DM — O PT fazia oposição xiita no governo de FHC, correto?
Dirceu — Não, não fiz isso e o PT não fez. Primeiro, que Fernando Henrique Cardoso não deixou instalar nenhuma CPI. Quando perdeu na assinatura derrubou na Comissão de Constituição e Justiça; e quando perdeu na Comissão de Constituição e Justiça derrubou de outra forma. Nunca, portanto, teve CPI.
DM — Faziam algo ilegal para não ter CPI no governo FHC?
Dirceu — Não, mas tinha a maioria (na Câmara Federal). Fernando Henrique usou a maioria que tinha e nunca deixou ter investigações.
DM — Usou máquina administrativa na época, então?
Dirceu — Usou parlamentares, emenda, nomeações, poder... Usou tudo.
DM — O senhor acredita na sua condenação?
Dirceu — Tenho chances reais de reverter no plenário a minha condenação porque não há provas, porque nesta situação, com a evolução da disputa política, vai ficando evidente que tudo que a oposição quer é a cassação. A oposição chegou a exigir do presidente Lula que ele não fosse candidato à reeleição, que não percorresse o País, não falasse com o povo. Isso é um golpe branco que quiseram dar. Chegaram a falar em impeachment sem nenhuma base legal, sem nenhuma prova, sem consistência. Agora estão voltando de novo nisso. Essa matéria da revista Veja sobre Cuba, a maneira como estão tratando essa questão da Visanet... Porque o mínimo da Visanet é o direito à dúvida e à presunção de inocência. Quer dizer: tem que provar que não houve prestação de serviços. E outra coisa: essa questão da Visanet já saiu na imprensa há alguns meses. É matéria requentada também. Isso já saiu nos jornais. Nós vimos, nossa assessoria viu e conferiu que essa notícia teria saído em julho. É uma matéria requentada para criar o clima de criminalização do PT e desestabilização do governo. O objetivo é não deixar o governo se estabilizar, não deixar o governo governar e por quê? Depois de seis meses o Lula continua forte nas pesquisas, o PT continua liderando, o PT fez o processo de eleições internas diretas e foi um sucesso.
DM — Acha que o pior já passou ou vai piorar?
Dirceu — Não, acho que vai continuar a disputa política, pelo tom dos discursos na convenção do PSDB (realizada no domingo, 6), pelo desrespeito ao presidente e pelo baixíssimo nível, pela violência que o PSDB está tratando. Esse partido está introduzindo na política um grau de ódio e violência que vai se voltar contra ele. Porque na democracia é assim: da mesma forma que ocorre com a gente tal violação no devido processo legal, dos direitos de defesa, esse desrespeito às decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a tentativa de achincalhar a Justiça, a pressão que a mídia fez sob o Supremo, isso tudo viola os direitos que serão deles amanhã. Veja, a mídia começou a fazer pressão no Supremo Tribunal Federal e isso, evidentemente, viola os direitos individuais. Viola o estado de direito da democracia, que não fica imune. Acredito, com toda certeza, que o PSDB está com esse tom de discurso, de surrar o presidente da República.
DM — FHC não foi à convenção do PSDB porque achou que iam pesar no discurso?
Dirceu — Não sei o motivo dele não ter ido. Mas evidentemente que não há como não comparar as duas posturas. O PT fez um encontro em 1999 e defendi nessa reunião — inclusive ganhei junto com outros companheiros e companheiras — a tese de que nós não podíamos assumir a palavra de ordem “Fora FHC!”, de fazer impeachment de Fernando Henrique, de exigir renúncia, porque considerava aquilo violação da democracia. E eles estão fazendo isso abertamente agora. E pior, fazem bem pior, porque quando não tem respaldo da opinião pública, se escondem por detrás do PFL, se escondem por detrás da iniciativa de terceiros... Eles têm os laranjas, que ficam propondo impeachment do presidente Lula.
DM — Já vivenciou antes um processo político como este?
Dirceu — O Brasil já viveu campanha contra corrupção, contra ‘subversão’ em 1963 e 1964. E, depois, nunca tínhamos visto tanta corrupção como no regime militar e o golpe foi dado exatamente contra a corrupção. Na verdade, aquilo era pretexto. Volto a repetir: as denúncias de corrupção precisam ser apuradas, responsáveis precisam ser punidos, mas não é verdade que o governo do presidente Lula é corrupto e muito menos que o PT é corrupto. O PT vai pagar, vai responder pelos erros que cometeu. O resto é instrumentalização política da oposição para tentar inviabilizar o governo do presidente Lula, a credibilidade do presidente Lula no poder. É uma tentativa de cassar o registro do PT e banir o partido da vida política do País. Tanto isso é verdade que não ficou só em mim. Eles foram para Gilberto Carvalho, para Palloci, para a família do presidente. E não pára. O processo continua.
DM — Esses fatos ameaçam a vida democrática do País?
Dirceu — Não, não acho que há uma ameaça à democracia nem às instituições. Mas ameaça a estabilidade do País. O que existe é uma tentativa de desestabilizar o governo e uma tentativa de inviabilizar o governo Lula e de impedir a reeleição do presidente, porque, nas urnas, eles tendem a perder. O governo está se recuperando, o presidente, também. E o PT está crescendo novamente. Vai ser uma disputa dura e difícil para eles em 2006.
DM — Parece que há um certo distanciamento do senhor com o presidente?
Dirceu — Não, não há nenhum distanciamento. Nenhuma mágoa entre eu e o presidente. O que há é a realidade: sou ex-presidente do PT e ex-ministro. Não tenho a mesma relação com o presidente. A relação agora é outra: se fosse ministro estaria todos os dias despachando com ele. Se fosse presidente do PT também estaria regularmente com ele. Mas sou deputado federal e estive com ele na reunião da bancada, quando convidou parlamentares. Estive duas vezes com ele. É razoável para quem foi ex-ministro e ex-presidente. Conversamos sobre a situação política. Aliás, numa das vezes era também uma reunião social. Então acho normal e natural o que ocorre agora. Presidente tem é que governar o País, tem suas responsabilidades administrativas. O PT tem mesmo que enfrentar a crise. Nós temos que enfrentar, os deputados, a bancada do PT. Mas a prioridade do presidente é o País, o governo. Logo, não é problema dele a defesa, nem os problemas internos do PT.
DM — Esse processo deixou o senhor deprimido, com algum problema de saúde?
Dirceu — Não, não, não. Faço exercício diariamente. Não fumo, bebo pouco, leio, vejo filmes, viajo. Tenho uma vida normal: trabalho, sou deputado, acompanho o parlamento. Não faltei a nenhuma sessão na Câmara. Quando falto é justificado: é porque estava no Conselho de Ética fazendo depoimento ou porque estava em viagem de representação da Câmara. Fui em todas reuniões do PT até extinguir meu mandato no diretório.
DM — Sobra tempo para correr todos os dias? Dirceu — Religiosamente: todos os dias. Ontem mesmo caminhei nas ruas. Geralmente faço esteira, mas está muito quente, abafado, por isso corro nas ruas. DM — É cinéfilo? Tem tempo para ir ao cinema?
Dirceu — Vejo muitos filmes em casa. De tudo um pouco. Vejo drama, épico, comédia...
DM — Parece que gosta de pintura, de artes plásticas?
Dirceu — Tenho alguns quadros. A minha sogra, dona Luzia, é pintora, tenho vários quadros dela. Alguns pintores goianos, Omar Souto, Oliver, Dina Cogolli...
DM — Não faz nada de artístico? Atua, escreve, toca instrumentos?
Dirceu — Já fui empresário (quase seis anos), servidor público (cinco anos) na Assembléia Legislativa de São Paulo. E sou advogado há 20 anos, mas advoguei somente um ano.
DM — Cassado ou absolvido, o que pretende fazer?
Dirceu — Qualquer coisa que aconteça, cassado ou não (mas eu não creio que serei cassado), pretendo voltar a advogar. Vou repensar e refazer a minha vida, porque depois de dez anos de presidência do PT, nessa luta toda que travei de 95 a 2005, depois de tudo que aconteceu, acho razoável que faça uma reflexão.Tenho uma idéia de fazer um livro com o Fernando Morais sobre a experiência na Casa Civil.
DM — O senhor vai escrever na primeira pessoa?Dirceu — Não, ele vai me ajudar, mas eu que vou fazer e escrever o livro.DM — O senhor acha que esse livro é para quando?
Dirceu — Mais rápido possível, talvez, no final do ano.
DM — Isso é para soltar, liberar, desopilar o que tem dentro do senhor ou é para ganhar dinheiro e pagar advogados?
Dirceu — Não, acho que é porque tenho a obrigação de fazer um balanço dos 30 meses na Casa Civil, de relatar como era o meu dia-a-dia de ministro. Falar muito do que não falei ainda, dos debates, das divergências, do que o governo fez, da importância das mudanças que fizemos no País. Falar do Planalto, dos avanços que o governo Lula conseguiu, e também dos erros, desafios, falar um pouco do Brasil, sobre o que fiz, desmistificar muito o que se fala da minha pessoa como ministro e político.



09/11/2005
Ulisses Aesse Editor de Reportagem
Welliton Carlos Da editoria de Economia
Quatro goianos repousam silenciosamente nas paredes brancas do apartamento do ex-ministro e hoje deputado federal José Dirceu (PT), localizado na Quadra 311, da Asa Sul, em Brasília. Os artistas plásticos Omar Souto, Oliver, Luzia Garcia e Dina Cogolli (ela é italiana, mas mora em Goiás) dão um toque especial e sincronia cromática ao ambiente decorado discretamente num estilo neoclássico e iluminado pela luz do sol, que, mesmo filtrada pelas venezianas, invade a sala de dois ambientes do apartamento funcional com direito ao canto das cigarras lá fora. Na entrevista com o ex-ministro-chefe da Casa Civil, percebe-se certa erudição (na grande mesa de centro da sala, embaixo da enorme prancha de vidro, vários livros de pintores, como o goiano Siron Franco e o pernambucano (Francisco) Brennand; na mesa de televisão Phillips de 29 polegadas, a cinegrafia (em DVD) completa do mestre do suspense Alfred Hitchcock. Em uma das mesas laterais, a seleção de fotografias recorda José Dirceu com a família. Noutra, num momento de intimidade, de extrema alegria, brinca com um ‘biloquê’. Dirceu estava longe do período de tensão que vive agora. Vestido numa camisa vermelho sangue, num habitual brim azul e mocassim (sem meia), o ex-ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República recebe, com um sorriso aberto, de quem está bastante tranqüilo, a reportagem do DM. Rompe o silêncio pela primeira vez numa extensa entrevista que publicamos em quatro páginas. Atencioso, chega a oferecer água, café ou suco aos presentes. José Dirceu, uma das lideranças do PT, que enfrenta hoje processo na Câmara dos Deputados que poderá cassar seu mandato, diz que é vítima de um golpe tramado pela mídia e oposição. Nas suas respostas, num tom monocórdio, sem altos e baixos, o deputado diz que se considera “réu sem provas”. É preciso ler nas entrelinhas algumas declarações, pois revelam parte do futuro político do PT e do próprio ex-homem forte do governo, que já avisa: vai fazer um livro sobre 30 meses na Casa Civil. Dirceu critica a revista Veja, a quem atribui ter feito, de forma escancarada, campanha para José Serra. Enérgico nas colocações quando o assunto é a revista, Dirceu não tem dúvidas de que a publicação é hoje instrumento a serviço do PSDB. Demonstrando confiança, acompanhado do assessor Nelson Breve, um de seus escudeiros, esmiuça definições de projeto futuro como, por exemplo, a publicação do livro, que terá auxílio do biógrafo Fernando Morais (Olga e Chatô, o Rei do Brasil).
Diário da Manhã – O senhor crê que a imprensa, ao invés de contribuir com a democratização, às vezes, faz o contrário?
José Dirceu – Veja bem: a imprensa, no caso do Brasil, primeiro é bastante concentrada, apesar de termos jornais regionais, municipais. Segundo, uma pequena elite só do País lê jornais, apesar de que hoje temos a internet on-line. Ela tem ajudado o País no processo político, no processo de democratização. Não se pode fazer um julgamento, também peremptório, de que a imprensa não tem ajudado. Ela em diferentes momentos jogou um papel bastante político, por exemplo, uma parte da imprensa apoiou o golpe militar e inclusive deu cobertura para a repressão nos anos da ditadura militar. Isso é público e notório. Uma parte da imprensa fez tudo para derrubar Juscelino Kubitschek nos anos de 55 a 59. Uma parte da imprensa conspirou abertamente para derrubar João Goulart – e aquilo era uma violação da Constituição. Se você for retomar o mar de lama do Getúlio Vargas, você vai ver que a imprensa jogou um papel, também, como jogou também na democratização, na campanha das Diretas, no impeachment do Collor. Então é preciso desmistificar: a imprensa tomou partido. A imprensa participa dos eventos políticos do País.
DM – E se equivoca às vezes?
Dirceu – Comete erros gravíssimos. Tem livros como o do Luis Nassif, como o do Mário Rosa que mostram, em parte, como a imprensa cometeu erros graves.
DM – Como o senhor vê o papel da mídia? Qual o futuro de um País que tem a mídia como essa que temos no Brasil?
Dirceu – Acho que realmente a imprensa me prejulgou e linchou. Por exemplo, no caso do prefeito (de Cruzeiro d’Oeste, no Paraná), que é meu filho, Zeca Dirceu, o modo como a imprensa retratou é um pré-julgamento. Primeiro que a imprensa teve acesso aos processos sem os advogados terem. E a imprensa já traz testemunhas como se fosse a pena, como se fosse um julgamento e condenação. Então a coisa é grave. Porque uma testemunha falou e já está tudo provado. Isso está acontecendo muito. Não há nenhum crime. Ele (Zeca) era funcionário, era chefe de um escritório da Secretaria de Emprego e Renda de Umuarama e antes era secretário de Indústria, Comércio e Turismo do Município, porque o prefeito anterior o PT apoiou, elegeu e depois rompeu com o prefeito, que era do PPS. Ele tinha apoio do governador e o governador já declarou que ele estava falando em nome do governo. Ele tem apoio dos deputados das bancadas, dos prefeitos, mas não adianta. O Ministério Público anunciou que ia denunciar e depois denunciou e a imprensa fez.
DM – O senhor se julga “um réu sem provas”?
Dirceu – Claro, totalmente sem provas.
DM – Estão tentando pegar o seu filho para ver se conseguem formular provas contra o senhor, que, até agora, não existem?
Dirceu – Na verdade eles fizeram um jogo antes da votação do Conselho de Ética, eles foram trazendo à tona, colocaram na pauta essa questão do Zeca Dirceu, colocaram na pauta a questão do empréstimo daquele Onix Lorenzoni (PFL), que fez uma denúncia vazia. Inclusive ele quebrou o decoro parlamentar porque deu publicidade ao sigilo, convocou uma reunião reservada e depois dá uma coletiva. Isso a TV Senado gravou tudo. Então, como se dá uma coletiva se a reunião é reservada? Isso mostra que a imprensa todinha é articulada para divulgar uma denúncia vazia. Meu filho, essa do Onix Lorenzoni e a coisa do Roberto Marques, que a própria imprensa também transitou em julgado na imprensa. Houve durante meu processo, por exemplo, essa questão que o Roberto Jefferson foi cassado, porque não ficou comprovado que tinha mensalão e estou sendo acusado de ser o chefe do mensalão. Isso a imprensa esconde. Segundo, que o PTB retirou a ação. A imprensa desapareceu com esse tema também. Quer dizer, não há prova nenhuma contra mim, porque não tenho participação no chamado mensalão ou na retirada de recursos, no nome que se dê. Também isso desapareceu. Então fica assim: eu sou chefe de um esquema de arrecadar recursos ilegalmente ou de corrupção para pagar e/ou comprar parlamentares, o chamado mensalão. Essa é a acusação. E há a acusação que eu tinha que saber: se eu não sabia, pior ainda. Aí que eu tinha que ser condenado. Então é presunção de culpa e inversão das provas. Eu que tenho que provar que sou inocente.
DM – Isso tudo começou com o tesoureiro, no caso Delúbio Soares. O senhor não acha que há semelhança com o caso do impeachment do presidente Collor?
Podemos dizer que seria ‘golpismo’ de alguns grupos (políticos) que tentam dominar o Brasil?
Dirceu – Não, eu diria, sempre falo e repito que não se pode jogar criança junto com água. Se tem denúncia de corrupção, tem que ser apurado. Se houve por parte do PT essa tomada de empréstimos através das empresas de Marcos Valério em bancos e o repasse para pagamento de campanhas ou para campanhas eleitorais, do PT e de outros partidos, isso é ilegal, tem que responder perante a Justiça eleitoral. Agora, o que aconteceu a partir dessas denúncias, desse fato, construiu todo um movimento para inviabilizar a reeleição do Lula, depois para desestabilizar o governo, depois para derrubar o governo. A verdade é essa. Acabei sendo o símbolo de tudo isso. Quer dizer, me cassar passou a ser o preço para atingir o PT e o governo do Lula. A verdade é essa. Não estou sendo cassado por que sou José Dirceu, o deputado federal. Eu estou sendo cassado porque fui presidente do PT, porque coordenei a campanha do Lula, fui ministro durante 30 meses na Casa Civil, pelo que represento nessa luta toda para a esquerda chegar ao governo do Brasil. A verdade é essa.
DM – Costuma-se falar que o senhor é arrogante, com semblante fechado. Acha que a imprensa tem má vontade por apresentar essa imagem?
Dirceu – Não, não acredito que seja isso. Isso pode ocorrer, pelo excesso de trabalho que tinha, pela agenda lotada, pelas funções que acumulei, pela minha história. Porque a imprensa cria imagem. Nesse começo do governo do Lula, a Folha (de S. Paulo) começou a dizer que eu era sombra, aí eu protestei e falei: sombra? É alguém que não tem publicidade, visibilidade. Todos os cargos que assumi tiveram eleição direta. Pelo centro acadêmico, na UEE, fui deputado estadual, deputado federal três vezes, fui candidato a governador. No PT fui eleito a última vez por eleição direta. Sou ex-ministro de Estado, como posso ser sombra? Sombra do quê? Fui presidente do PT por sete anos, secretário-geral por cinco anos, isso era público. Sombra podia falar na época da clandestinidade, mas também não era porque eu tinha uma identidade assumida. Era uma pessoa pública. Não há nada que me desabone nos anos que passei na cidade (Cruzeiro dOeste). Passaram 30 anos e não tem nada que me desabone. Fez 30 anos agora em abril que cheguei lá. Então a imprensa faz isso. E o caso que sempre cito é o Sombra Sérgio Gomes, que nunca teve apelido de Sombra. O apelido dele era chefe. A imprensa sabe que o apelido dele era chefe. Ele era chamado assim pelos amigos, pelos funcionários, dirigentes do PT. Mas virou sombra? Por que sombra, se ele também era pessoa pública? Foi assessor do Celso (Daniel), chefe de gabinete, ele tem vida empresarial, endereço, família, vive publicamente. São apenas clichês que a imprensa inventa para denegrir a imagem.
DM – Por que parte da imprensa inventa clichês e denúncias para prejudicar a imagem dos políticos?
Dirceu – Porque é a luta política, é a disputa de interesses, a disputa pelo poder. A imprensa faz parte dessa luta e não adianta dizer que não. A revista Veja está jogando nesse momento o papel do conservadorismo, da direita, de agrupar e dirigir o eleitorado grande do Brasil, de forma conservadora.