O depoimento do ex-tesoureiro do PSDB de Minas Gerais, Cláudio Mourão, marcado para a próxima quarta-feira (19) na CPMI dos Correios, pode demonstrar a ligação entre as empresas do publicitário Marcos Valério de Souza e políticos tucanos. A avaliação é do deputado Paulo Pimenta (PT-RS). "Cláudio Mourão é o elo para se comprovar que o DNA do valerioduto é tucano. Existe um conjunto de questões não respondidas que ele vai ter que esclarecer", disse.
Cláudio Mourão foi secretário de Administração do então governador mineiro Eduardo Azeredo (1995-1998), hoje senador pelo PSDB. Mourão licenciou-se do cargo para coordenar a campanha de Azeredo ao governo estado, em 1998. Segundo Paulo Pimenta, o então governador assinou uma procuração para que o ex-secretário conduzisse a campanha, inclusive no que se referia ao financiamento.
Naquele ano, o publicitário Marcos Valério de Souza tomou um empréstimo no valor de R$ 9,5 milhões junto ao banco Rural, com o governo de Minas Gerais como avalista. O empresário disse ter repassado todo o dinheiro para Cláudio Mourão. Em depoimento às comissões parlamentares de inquérito, Valério apresentou comprovantes para R$ 1,8 milhão, que teria sido repassado a 74 candidatos a deputados estaduais e federais mineiros.
Outros R$ 4,5 milhões teriam sido pagos ao publicitário Duda Medonça, que fez a campanha de Eduardo Azeredo ao governo de Minas Gerais. Segundo Marcos Valério de Souza, só Cláudio Mourão pode informar onde foi parar o restante do dinheiro – cerca de R$ 3,2 milhões.
Segundo o deputado Paulo Pimenta, o ex-secretário de Administração de Minas Gerais entrou com uma ação por danos morais contra o já senador Eduardo Azeredo no Supremo Tribunal Federal (SFT), em 2003. Mourão revelou que uma dívida de R$ 20 milhões proveniente da campanha tinha ficado em nome dele. Detalhe: o valor de campanha declarado por Eduardo Azeredo foi de R$ 8,5 milhões.
Na petição encaminhada ao STF, Cláudio Mourão descreve as dívidas contraídas durante a campanha. Segundo Paulo Pimenta, ele descreve, por exemplo, como recursos de empresas estatais de Minas Gerais foram repassados à campanha de Eduardo Azeredo via SMP&B – uma das agências do publicitário Marcos Valério de Souza.
Comig
A Companhia de Desenvolvimento Econômico (Comig) e a Companhia de Saneamento (Copasa) de Minas Gerais repassaram R$ 3 milhões para a SMP&B, que deveria organizar o Enduro da Independência, em 1998. Segundo Paulo Pimenta, a petição de Cláudio Mourão indica que o dinheiro foi transferido para a campanha tucana.
Outra empresa estatal, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), fez um depósito na conta da SMP&B em 1998. "No dia seguinte, o dinheiro foi transferido para as contas de dezenas de candidatos do PSDB e do PFL", disse Pimenta.
Segundo o petista, a quebra de sigilo fiscal de Marcos Valério de Souza revela que o publicitário negociou empréstimos para Cláudio Mourão em 2001 e 2002. O ex-secretário de Administração mineiro tomou dinheiro emprestado do banco Rural, e Marcos Valério figurou como avalista. "Isso mostra que a relação entre eles se manteve, mesmo depois de 1998", disse Paulo Pimenta.
No dia em que Eduardo Azeredo depôs espontaneamente à CPMI dos Correios para negar as ligações com o publicitário Marcos Valério de Souza, Cláudio Mourão pediu desistência da ação por danos morais contra o senador no STF. Mas a documentação sobre a contabilidade das campanhas tucanas em Minas Gerais já está em poder do Ministério Público Federal. "Vai ser um depoimento esclarecedor para revelar o modus operandi do esquema", afirmou Paulo Pimenta.